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Cidadania e Sociedade

O RACISMO E O FIM DA HISTÓRIA

Regina Sardoeira

Em tempos, decidi decorar Os Lusíadas. Fiquei-me pelas primeiras dez estâncias, mas descobri que ainda as relembro. Por isso, ontem à noite, estive a reproduzi-!as mentalmente e logo percebi, para meu profundo desconcerto, que o nosso maior símbolo da Literatura era, afinal, racista! Logo no início, lá está:

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A fé e o império; e as terras viciosas
De África e Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da morte libertando
Cantando espalharei por toda a parte
Se a tanto me ajudar engenho e arte.

Mas há muito mais. D. Afonso Henriques e todos os reis que lhe sucederam, até à formação de Portugal, foram racistas: combateram, mataram e expulsaram os mouros do território. Ora os mouros são africanos e logo negros!
A seguir veio a formação do Império, o domínio de África, a subjugação dos autóctones (negros!),a afirmação do domínio dos brancos, da sua civilização, costumes e religião.
O império ultramarino, as províncias portuguesas de além-mar, como eram designadas, perpetuaram o racismo. E veio a guerra. Em Portugal, diziam aos jovens, mandados combater para África, que iam defender a Pátria; os designados “terroristas” (negros) eram, afinal , os povos originais a lutar pela sua independência.

É necessário proibir a leitura de Os Lusíadas, inventar um novo index para esta e outras obras afins, banir os quase 900 anos da História de Portugal, que talvez possa começar, com os devidos ajustes, depois de 25 de Abril de 1974!
Cantar e celebrar as glórias de Portugal, preservar monumentos, estátuas, documentos e, afinal, todo o património são, em resumo, actos racistas dos quais devemos preservar-nos cuidadosamente.

Eis os meus pensamentos de ontem à noite, no rescaldo do derrube da estátua de Cristóvão Colombo , em Saint-Paul, Minnesota, da retirada do filme E tudo o vento levou feita pela HBO , da vandalização da estátua de Padre António Vieira, em Lisboa.
Creio que o confinamento das pessoas, provocado pelo vírus, produziu alguns frutos, afinal: na saída, os povos não irão deixar pedra sobre pedra!

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