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O TRABALHO POR QUEM NÃO O DEVE FAZER

Joana Benzinho

Na Guiné-Bissau começa a trabalhar-se desde muito cedo. Não há crianças em fábricas a fazer as t-shirts com que nos passeamos no Ocidente, isso não. Mas apenas por não haver indústria, porque com a mesma idade dessas crianças do Bangladesh, as da Guiné-Bissau também se dedicam a diversas atividades e têm responsabilidades que competem, ou deviam competir, apenas a adultos.

Nas ruas de Bissau são as crianças que diariamente deambulam a vender o caju, a mancarra (amendoim), as bananas ou as mangas. São elas também que correm atrás de nós a tentar vender cartões com crédito para o telemóvel, com as escovas do para-brisas ou com a caixinha de engraxar sapatos.

Saindo da urbe, e em época de campanha do caju, a maior fonte de rendimento das famílias guineenses, é muito comum as escolas ficarem com muitas das carteiras vazias. Porque em tempo de aumentar o rendimento familiar os pais não hesitam em tirar as meninas e os meninos da escola para os ajudarem de sol a sol na apanha deste valioso fruto no mercado mundial mas que ali pouco lhes rende ao quilo.

Continuando estrada fora, é comum ver as meninas carregadas de alguidares com água, curvadas pelo peso tão desproporcional ao seu tamanho, enquanto os rapazes passam de catana ao ombro com destino ao mato, em busca de lenha para fazer a fogueira que vai confeccionar a refeição da família.

Num país cheio de rios e canais, de forte tradição na produção de arroz, os campos que ainda não foram salgados pelo mar, são cultivados para assegurar o auto-consumo e muitas vezes a única refeição diária das famílias. E aqui, mais uma vez, recorre-se às meninas para a descasca manual deste cereal.

O pilão que manobram sem contemplações, substitui-se à escola e à aprendizagem das vogais e dos primeiros números. São quatro a cinco horas diárias de descasca de arroz para depois apoiarem a mãe nas lides domésticas e agrícolas. Nestas coisas do trabalho infantil, as meninas têm menos oportunidade de fugir à evidência. Não fosse a mulher o sustento e a força da casa na Guiné-Bissau. E em África.

Esta semana voltou a falar-se deste flagelo pois celebrámos a 12 de junho o dia mundial contra o trabalho infantil mas… a realidade é que nos próximos 365 dias continuaremos a roubar sonhos aos mais pequenos, a perder alunos na escola e a perder infâncias para as actividades que deviam caber só aos adultos no mundo. Está tudo por fazer nesta área. Mais que um diagnóstico anual, as crianças precisam de proteção efetiva e que lhes seja assegurado o direito à infância em todas as suas dimensões, também na Guiné-Bissau.

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