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Cultura, Literatura e Filosofia

FRAGMENTOS DO SILÊNCIO

Regina Sardoeira
Apanho um fragmento do silêncio da tarde e penso, com imagens, os longes que a vista não alcança, embora se adivinhem num certo horizonte. Se não fosse este silêncio e as paisagens da alma, vivíamos sempre aturdidos e suspensos do drama e da tragédia que uma sombra fugaz pode fazer-nos entrever. E logo dissiparíamos a tranquilidade, que nos é enviada na brisa fresca, e não poderíamos ver o reflexo solar  a deixar luzes alaranjadas no crepúsculo.
Mesmo assim, os turbilhões residem no  augúrio da sombra, turbilhões palavrosos: que o homem inventou as palavras para se fazer entender e depois agrediu o silêncio e desentendeu-se.
Creio ser este um dos principais problemas do nosso mundo: a tempestade de palavras , umas, certeiras, outras, ambíguas, outras, repletas de malícia, palavras criadas para comunicar,  para tecer organismos poéticos, para estender argumentos e estabelecer diálogos; e contudo transformadas em espadas afiadas com que mutilamos a concórdia.
Mas, acima de tudo, as palavras trouxeram a mentira para o universo dos homens, a mentira em pequena escala , nos mundos prívados de cada um, a mentira corruptora dos laços íntimos, destruidora de amizades e vínculos e depois a mentira à escala global, essa tremenda escalada de falsidade, difundida diariamente em todo e qualquer meio de comunicação social, propalada pelos líderes mundiais, esses, que fomentam o ludíbrio, mesmo quando estão de acordo, por detrás da cortina.
Esta é a realidade humana. De tanto ouvirmos mentiras, a toda e qualquer hora do dia, elas começam a parecer-se com a verdade, mesmo quando, no início, não acreditávamos nelas. E em pouco tempo, começamos a incluí-las na nossa concepção do mundo e a espalhá-las nos nossos círculos pessoais.
Não adianta ter dúvidas acerca desta invasão da mentira em tudo quanto é vivência humana. As dúvidas não serão nunca passíveis de ser resolvidas, as dúvidas, por esse razão, perturbarão mais ainda a sanidade das nossas mentes…as dúvidas, neste contexto generalizado de mentira, não têm o papel purificador que lhe supúnhamos próprio.
Por isso, em abstracto, deixo suspensas as minhas próprias palavras, elas também permeáveis a múltiplas significações e logo a caminharem, perigosamente, para a ladeira da mentira. E deixo-me ficar, neste fim de dia, presa a um certo intervalo de silêncio e quase de treva, para que a lucidez assente os laivos de inquietação urdidos no bulício do dia.

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