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Saúde e Vida

A SINERGIA ENTRE AS TERAPÊUTICAS PSICOLÓGICA E FARMACOLÓGICA

Ana Miranda

A dicotomia corpo e mente, apesar de insalubre e acirrada, ainda existe na sociedade contemporânea.
Não obstante da comprovada inexistência da atividade psicológica independente da atividade biológica, e de ter sido já atestado que a atividade psicológica é estritamente biológica, a incerteza, na hora de optar pela medicação ou pela psicoterapia, impera.

As abordagens terapêuticas dos transtornos mentais podem, sim, encontrar-se discriminadas em “biológicas” e “não biológicas”; porém, essa divisão de nomenclatura é meramente didática, uma vez que todas as ações, comportamentos e cognições humanos, ocorrem no interior do cérebro e refletem atividades neurofisiológicas.

Embora se evidenciem transformações bioquímicas neuronais, quer no recurso à psicoterapia quer no recurso à prescrição farmacológica, a individualidade idiossincrática do paciente exige, por parte do profissional de saúde mental, uma avaliação criteriosa e detalhada, no ensejo da adoção do tratamento terapêutico mais promissor.

A saúde mental é o pilar mais significativo da nossa edificação pessoal.

Na psicoterapia os infortúnios quotidianos são ventilados e há espaço para o autoconhecimento, silenciando-se as orientações externalizadas e dúbias (não académicas), que bloqueiam a reflexão ou responsabilização individuais.

Em jeito de analogia, a terapia psicológica revelou, a longo prazo, resultados mais positivos, especialmente a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Isto deve-se, acredito, ao facto de no setting terapêutico, serem identificados pensamentos imprecisos ou negativos e ensinadas habilidades de confronto dos problemas. Estas ferramentas adquiridas, se adequadamente assimiladas e interiorizadas, permanecerão ad eternum, auxiliando o paciente a lidar com possíveis vicissitudes e intempéries futuras, desencadeadoras de stress, de forma mais assertiva. Com a exclusiva prescrição farmacológica, este “ganho eviterno”, não se verifica.

Todavia, a atuação dos psicotrópicos (ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor) pode tornar a psicoterapia mais efetiva, reduzindo a severidade dos sintomas e aumentando, por conseguinte, a adesão do paciente à intervenção. A medicação que atua ao nível do Sistema Nervoso Central (SNC) restaura a plasticidade neuronal, onde se estabelecem novas conexões entre os neurónios, aumentando-se a reserva cognitiva.

Se, por um lado, a psicoterapia apresenta objeções de cariz pecuniário, intensidade e durabilidade; a abordagem farmacológica isolada peca pelo alívio sintomático temporário, ou seja, cessando a medicação o antigo padrão de pensamento do paciente, propulsor da ansiedade, frustração, depressão ou insónia, ressurge. Acresce à medicação per se, os efeitos colaterais que variam em função do sexo, idade, aspetos corporais e químicos, doenças físicas, toma de outros farmácos, tipo de dieta e tabagismo, agregando-se os estudos controversos que demonstram o efeito placebo dos antidepressivos e ansiolíticos.

Dizem-me a literatura e a experiência clínica, que a abnegação da abordagem psiquiátrica é a mais ingente e irracional das falhas.

Aquando da atuação concomitante da terapia psicológica e medicamentosa, existem evidências de bons resultados.
Nos problemas concernentes à parentalidade, relacionamento e adaptação, a psicoterapia poderá ser suficiente; já em situações de transtornos de ansiedade e depressão severos, perturbações alimentares, esquizofrenias e transtornos bipolares, o esteio farmacológico afigura-se categórico, no sucesso interventivo. Trata-se de uma relação simbiótica, sem polarização das ciências, que promove a adesão (TCC) e a aceleração da resposta (psicofarmacologia), reduzindo-se as recidivas.

Advogo, acerrimamente, a coadjuvação das áreas supracitadas, sempre que tal se justifique (sou contra a prescrição indiscriminada e avulsa de medicação psicotrópica, “só porque sim”), desviando-me de teorias reducionistas que, por egoísmo puro e desejos de ubiquidade, comprometem os prognósticos clínicos.

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