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Cidadania e Sociedade

PRIMAVERA DE 2020 OU QUANDO AS PAREDES DAS SALAS DE AULA SE DESMORONAM

Tereza Cadete Sampainho

O telefone tocou, a diretora do Agrupamento de Escolas de Alcanena apresentou o desafio como algo irrecusável. Havia uma responsabilidade social a assumir, uma missão a cumprir. A família encorajou, as colegas, que não tinham condições pessoais para avançar, garantiram o apoio, a retaguarda. Entre o entusiasmo e a ansiedade perante o desconhecido, disse que sim, parti, determinada a levar a tarefa até ao fim: seriam vinte aulas, duas de 30 minutos por semana, até dia 26 de junho (foram dezanove, por causa de um feriado). Tinha acabado de entrar no projeto #EstudoEmCasa.

Aula 1: Bravura ou Temeridade; Aula 2: “O Homem do Leme” enfrenta “O Monstrego”

De uma semana para a outra multiplicaram-se as reuniões via Zoom, os mails, os telefonemas.

De repente, já não íamos gravar na nossa escola, as aulas seriam gravadas nos estúdios da RTP. Não haveria cortes nem edição, não haveria teleponto nem maquilhagem.

Aula 3: Visões da Natureza: Girrassóis e um “Segredo”; Aula 4: Visões da Natureza: Uma janela virada para o mar

Não havia tempo para nervosismos, a adrenalina liderava e havia que estabelecer prioridades! Uma coisa de cada vez. A Direção Geral de Educação apresentou o modo como íamos trabalhar. No Português de 7.º e de 8.º anos importava garantir que os alunos dos dois níveis acompanhavam as aulas sem dificuldade, mas com interesse. Houve temas definidos para as duas primeiras semanas, deveríamos então escolher textos, autores adequados, considerar as aprendizagens essenciais e os conteúdos que normalmente são lecionados no final do ano letivo. Não podíamos esquecer sobretudo que esta iniciativa se dirigia especialmente aos alunos que não tinham conectividade. Para cada aula havia que preparar a apresentação, que seria o seu suporte, um roteiro/guião e uma proposta de atividades suplementares. Todos os documentos seriam sempre sujeitos a três níveis de validação por parte da DGE, implicando prazos violentamente apertados.

Aula 5: A Terra tem algo a dizer; Aula 6: Nós construimos o futuro da Terra.

Conseguimos preparar quatro aulas antes da primeira sessão de gravações. A intenção inicial era começar por gravar as aulas três e quatro e, depois, mais familiarizada com o ambiente, gravar a primeira e a segunda. Nada sucedeu como previsto, gravei as duas primeiras aulas na Sexta-feira Santa depois de ter percorrido uma A1 quase deserta. Atingi nessas viagens, em todas elas, níveis de ansiedade que desconhecia em mim. Os momentos antes de cada gravação eram de muita tensão, apenas mitigada pela afabilidade da equipa da Fremantle. Mas, no fim de cada par de aulas gravadas, ainda inebriada pela máxima concentração, sentia o desejado alívio e a certeza de que ainda iria ter saudades de tudo.

Aula 7: Solidariedade. O melhor de nós; Aula 8: Solidariedade. A publicidade conjuga o verbo ajudar.

Após o primeiro embate, seguiram-se semanas vertiginosas em que as gravações alternavam com dias de pesquisa, de seleção, de procura de um fio condutor que desse sentido a cada aula. Recordei e descobri escritores, pintores, cantores, textos e músicas, quadros, animações e vídeos. Renascia em mim, com redobrado deslumbramento, o que em primeiro lugar me fez querer ser professora: ser eternamente estudante.

Aula 9: Estar perto na distância – Ver com o coração; Aula 10: Estar perto na distância- evasão.

Sugerimos os temas para as semanas restantes e fomos amadurecendo ideias. Progressivamente fui percebendo que esta era a oportunidade de dar ao texto poético algum tempo de antena. É frequente a poesia ficar para o final do ano letivo, ser analisada em grupos e, honestamente, tenho sempre a sensação de que é trabalhada, no ensino básico, à pressa e com menos profundidade do que merece. Pretendi assim contribuir para a preparação dos alunos para o Ensino Secundário uma vez que é manifesta e frequente a dificuldade em interpretar, por exemplo, os recursos expressivos. Foi com essa consciência que privilegiei a poesia e a sua dimensão estilística.

Aula 11: Estar perto na distância – A minha pátria é a língua portuguesa; Aula 12: Não sou o único.

Entretanto, era preciso estabelecer relações de sentido, momentos que captassem a atenção e que proporcionassem aprendizagens. A construção das apresentações era uma tarefa de minúcia e de cuidado estético, deliciosa. As orientações valiosas da realizadora quanto ao tamanho da letra e às cores a privilegiar permitiram afinar o produto final e debelar fragilidades. Depois de tudo pronto, seguiam-se horas de treino solitário para acertar tempos e garantir que havia margem de um minuto e meio para oscilações. No final, a típica noite mal dormida antes de dia de gravações era inevitável.

Aula 13: Iguais na diferença-Quando a discriminação é um drama!; Aula 14: Quem sou eu? Quem somos nós? Da indiferença à amizade.

À medida que as aulas foram sendo transmitidas, foi ficando claro que eram vistas por muitos alunos, mas também por muitos outros. O #EstudoEmCasa foi uma forma enriquecedora de ocupar o tempo daqueles que estavam confinados, principalmente dos idosos. Entre os alunos havia casos especiais e a colaboração com as intérpretes de língua gestual mostrou-me que havia quem não conseguisse acompanhar as aulas tal como eram dadas. Afinal, no caso dos alunos surdos, o português é uma segunda língua e não a língua materna. Havia conceitos, imagens, músicas que não eram percecionados por todos da mesma forma. Despertei para essa realidade, despertei para a importância de tentar incluir todos o mais possível, o melhor possível. Tenho consciência de que o meu esforço ficou muito aquém do que desejava, no entanto tive retornos muito reconfortantes de espetadores cegos e dos alunos surdos que manifestaram satisfação junto das suas professoras por serem referidos.

Aula 15: Quem sou eu? Quem somos nós? Sei que não vou por aí!; Aula 16: Do sonho às estrelas.

Sou uma professora de sala de aula, leciono há vinte e seis anos. Sempre mantive com os meus alunos uma relação de cumplicidade e de respeito. Move-me a vontade de espevitar a curiosidade, o interesse, o gosto por aprender, por pensar. Gosto de acreditar que ajudo os adolescentes que vou encontrando a tornarem-se jovens ávidos de saber e de intervir. Eu tenho aprendido sempre. Foi por gostar de andar na escola e de estudar que quis ser professora, mas ser professora de Português, desta disciplina que é a nossa língua, que é sublimada pelos nossos escritores, que é o palco por excelência para abordar todos os assuntos, todas as áreas. Através dela aprendemos, refletimos, comunicamos, emocionamo–nos, relacionamo-nos. Esta relação aluno/professor acontecia apenas na sala de aula ou nos mails trocados. Ninguém, para além de nós, tinha a noção do que se passava nas nossas aulas. A sala de aula era um lugar de intimidade, de exclusividade para aquele grupo e, ocasionalmente, para um ou outro aluno que precisasse de falar a sós.

Aula 17: Das estrelas ao sonho; Aula 18: A esperança é a primeira a nascer – A esperança alimenta o sonho.

Nas aulas no #EstudoEmCasa, senti que as paredes da sala de aula tinham ruído. Agora todos viam como era estar na minha sala de aula…  Confirmei isso quando recebi mensagens de antigos alunos. Diziam que viam as aulas para matar saudades… Confesso que me reconfortou, a televisão não estava a “maquilhar” a minha atitude de professora. Percebi que quando decidi tratar a câmara por tu, me dirigia a cada aluno, na tentativa de replicar aquela cumplicidade.

Esta abrangência das aulas trouxe consigo uma responsabilidade diferente. O bom senso que costumo usar nas aulas dentro da sala não é suficiente quando se passa na televisão. A DGE desempenhou aqui um papel fundamental ao acautelar situações que podiam originar mal-entendidos. O live on tape, que impede os cortes, mas que garante a autenticidade, deixa-nos a frustração, a sensação de impotência perante caminhos que o nosso cérebro percorreu sem que o tivéssemos conseguido controlar. Esta abrangência trouxe também as respostas de novos alunos, daqueles que sentiram que era a eles que me dirigia. Recebi trabalhos, mensagens generosas de alunos, de mães, de pais, de colegas. Senti–me mimada e reconhecida, mas senti também a humildade que é necessária para enfrentar a exposição pública dos meus lapsos e de algumas gralhas.

Participação no Preço Certo – Especial Professores do #EstudoEmCasa

Agora que faltam poucos dias para a transmissão da última aula, ainda estou a recuperar. Preparo-me para arrumar o escritório, para repor os livros nas suas prateleiras.  Estou determinada a organizar a minha biblioteca, a reler e a ler novos livros, a ouvir mais música, a ver mais filmes, mais séries, a ouvir mais podcasts.

No final de cada ano letivo, sou sempre uma professora diferente. Este ano não é exceção, tudo o que vivi terá implicações na minha maneira de ser e de fazer tanto em sala de aula como a dar continuidade a este tipo de iniciativa. Nesse caso, acredito que apenas o grau zero foi superado e que a necessidade de refletir e de considerar a experiência é incontornável. Esta modalidade de aprendizagem constitui mais um recurso ao dispor de todos os intervenientes no processo e também de todos os que querem continuar a aprender.

As ideias são muitas, há tanto para fazer… chegou a saudade, mas setembro já está a caminho…

 

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