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Cultura, Literatura e Filosofia

OH! SANTA IGNORÂNCIA!

Jorge Nuno

«O mundo começa a assistir ao incremento do poder do povo. Quando os indivíduos, no mundo inteiro, começarem a aceitar a responsabilidade pessoal, farão as suas próprias escolhas. Por todo o mundo, os cidadãos exigem liberdade, honestidade, paz e justiça. O velho paradigma de líderes e liderados, de ricos e pobres, de autoridade e submissão, de visões políticas adversárias ou de ditaduras está a perder a sua eficácia. A cocriação e a cooperação estão já a tornar-se possibilidades»[1]. Este extrato da obra de Diana Cooper mostra-nos uma projeção para a realidade atual e futuro próximo. Já há uns anos que se verifica uma agitação de massas por todo o mundo, sempre em crescendo. Muita dessa luta faz sentido e tem como fim, supostamente, provocar mudança. Contudo, há casos de instrumentalização, de abusos, aproveitamento político e até aproveitamento pessoal, quando se fala do envolvimento direto na luta.

Alguns dos casos mais recentes surgiram após abuso policial sobre cidadãos negros, que levou à indignação de milhões de cidadãos nos Estados Unidos da América, com manifestações nas ruas, destruição de bens públicos e privados, pilhagens, paragem da atividade económica na maioria das cidades daquele país… que se estendeu a outros países, noutros continentes. Começou então um movimento para destruir todas as marcas do colonialismo, da escravatura, da supremacia branca sobre a raça negra, sendo um ato de fé a destruição das estátuas representativas de figuras que tiveram o seu papel na história, nem sempre pelas melhores razões, aos olhos de quem observa a história alguns séculos depois. Com a pressão de populares nos protestos antirracistas, e com anuência forçada do poder político em diversos países, têm vindo a ser retiradas estátuas que, de algum modo, estejam associadas à escravatura e subjugação da raça negra, embora se saiba que não se apaga a história ocultando as parte menos boas.

Retemos na memória um acontecimento de 2001, em que assistimos, perplexos, à destruição de estátuas gigantes de Buda, esculpidas nas rochas (com 55 e 38 metros de altura), no século V, em Bamiyan, na antiga rota da seda, que ligava a China à Índia. As estátuas e a “paisagem cultural” estavam classificadas na lista de Património Mundial, pela UNESCO. Quem deu ordem de destruição foi o governo fundamentalista islâmico talibã, no Afeganistão.

Em Portugal, parece ter-se seguido algum fundamentalismo nos protestos, a par de ignorância, em que indivíduos, a coberto da noite, vandalizaram alguns espaços. A estátua do Pe. António Vieira, rodeado de crianças indígenas, foi um deles. Na sua base escreveram a palavra “Descoloniza” e borraram a sua cara a tinta vermelha, e desenharam corações vermelhos sobre o peito das crianças. Qualquer pessoa, minimamente culta, sabe situar a época em que viveu o Pe. António Vieira, o seu caráter e a sua obra. Por estar devidamente documentado e para que não haja dúvidas: viveu entre 1608 e 1697; a sua mãe era filha de uma africana; pertenceu à Companhia de Jesus, logo, era jesuíta; notabilizou-se como orador/pregador, na filosofia e teologia, na escrita, no seu papel como missionário no Brasil, como diplomata e conviveu de perto com a realeza e com dois papas.

É conhecido o papel do Pe. António Vieira como grande defensor, na corte, dos judeus que vinham a ser forçados a converter-se ao cristianismo[2], ou eram expulsos de Portugal, ou iam “voluntariamente” para o Brasil, pois entendia que os judeus eram livres de fazer a sua escolha; e foi um grande defensor dos direitos dos povos indígenas, explorados e ultrajados pelos colonos portugueses no Brasil. Há que reconhecer: numa época em que estava instituída a escravização, ter ousadia de pedir insistentemente a abolição da escravatura, revela ser um homem de coragem!

Mas vamos ao resumo dos factos cronológicos com maior destaque:

1654 – Vindo do Brasil, pediu ao rei D. João IV de Portugal, “providências favoráveis aos índios [do Estado do Maranhão]”;

1661 – Foi expulso do Estado do Maranhão, por combater a escravidão dos índios;

1667 – Por ter entrado em conflito com o Tribunal do Santo Ofício – a Inquisição de má memória, pelas atrocidades cometidas – ao ousar criticar a atuação do clero, conivente com atos pouco consentâneos com a doutrina da igreja, acabou por ser acusado de heresia pelo apoio à causa dos direitos dos judeus e pelos seus manuscritos “sebastianistas”, sendo proferida a sentença «… seja privado para sempre da voz ativa e passiva e do poder de pregar…», pelo que ficou preso em Coimbra;

1668 – Foi amnistiado pelo rei D. Pedro II de Portugal;

1669 – Em Roma, combateu a Inquisição Portuguesa e o papa Clemente IX anulou as suas condenações e penas;

1675 – O papa Clemente X isentou-o «por toda a vida de qualquer jurisdição, poder e autoridade dos inquisidores presentes e futuros de Portugal»;

1690 – Promoveu a missão entre os índios Cariris, da Bahia, Brasil, financiando-a com o lucro da venda dos seus livros;

1694 – Emitiu um parecer favorável da liberdade dos índios, contra as administrações particulares da capitania de São Paulo, Brasil.

Como se tudo isto não chegasse… o Pe. António Vieira deixou-nos um importante legado cultural, com um valioso património literário. Ainda nos dias de hoje se continua a investigar este património, reunindo-se documentação produzida por ele, envolvendo o Brasil e vários países europeus. Estão ao nosso alcance cartas, obras proféticas, escritos políticos, e principalmente os seus “Sermões”, no âmbito de temas políticos e missionários, sendo o mais célebre o “Sermão de Santo António aos Peixes”, pregado em São Luís do Maranhão, em 1654. Sobre este, aqui fica um pequeno excerto: «(…) Porque os grandes têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros. E de que modo os devoram e comem? Não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses do ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto é o que padecem os pequenos: são o pão quotidiano dos grandes; e assim como pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem. Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e ao olhardes uns para os outros vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade. (…) Mas se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviram estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam acham outros maiores que os comam também a eles (…)».

O Pe. António Vieira foi um lutador, não pela espada, mas pela palavra, tendo pugnado pela honestidade, liberdade e justiça entre os homens, mesmo que, com a sua coragem, tivesse de abdicar da paz. Os indígenas tratavam-no por “paiaçu”, que significa em Tupi “grande padre / pai”, tal era o enorme respeito que tinham por ele.

Oh santa ignorância… de quem conspurcou a estátua que perpetuava a sua memória!

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[1] In “2032 – A Nova Idade de Ouro”, p. 98, de Diana Cooper, com 1.ª edição em setembro de 2012, Ed. Nascente.

[2] cristãos novos

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