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Cultura, Literatura e Filosofia

OS MOINHOS DE VENTO VISTOS ATRAVÉS DE UMA JANELA DE UM CHIADO QUALQUER

Marco Bousende

A europa constitui o lugar no mundo onde provavelmente há maior equilíbrio a nível de liberdades, direitos sociais, cuidados de saúde e democracia. Embora com assimetrias entre países, é certamente aqui, senão o melhor, um dos melhores lugares para viver.

Contudo, é interessante verificar que as maiores assimetrias se verificam dentro dos próprios países, entre os centros urbanos privilegiados e os subúrbios em decadência. Existem, embora cada vez menos relevantes demograficamente, os meios rurais. Estes estão ainda mais afastados economicamente e socialmente dos centros ‘’cool’’ e ‘’trendy’’ da elite urbana.

Parte desta elite urbana é muito viajada, facto que se alicerça na maior capacidade financeira e no ímpeto pseudo-globalista que adora embandeirar. Correm o mundo e colam-no nas redes sociais. O que importa é deixar marca! Está feito! Está visto! Este modus vivendi das experiências rápidas, em que não importa saborear uma vivência, mas sim demonstrar ao mundo que se fez, não possibilita grande aprendizagem ou reflexão.

Ora vejamos. Parte desta tribo que vive numa pequena bolha alheada das dificuldades do cidadão comum, entra facilmente em depressão. É preciso viver rápido! Experimentar e mostrar tudo! Como isso não é possível permanentemente e não há uma matriz de valores que sirva de sustentáculo moral, dedicam-se a causas inspiradas em moinhos de vento visualizados pela pequena janela da história dos ainda mais pequenos e insalubres apartamentos da urbe.

Há anos atrás tive a oportunidade de visitar a cidade de Santo Domingo, capital da exótica República Dominicana. País de gente extrovertida e simpática, marca indissociável das Caraíbas. Depois de alguns passeios pela cidade, chegou a vez de visitar um dos monumento mais emblemáticos do país. Falo do Farol de Colombo, monumento gigantesco onde os dominicanos insistem que estão os restos mortais do navegador. Nele pude ver aquilo que, pelos vistos, é proibido em Lisboa: um museu dos descobrimentos (!), onde aliás os portugueses estão bem representados.

O Farol de Colombo custou em proporção do PIB o equivalente a 320 milhões de dólares em Portugal, tendo sido construído ao longo de extensos 60 anos pelo governo da independente República Dominicana. Vão lá explicar à tribo urbana quixotesca como foi possível um pais tão pobre gastar tanto dinheiro e ter tanta intransigência em afirmar que os restos mortais do seu ‘’colono’’ estão ali!!!

Em Mactan, atuais Filipinas, há V séculos Fernão Magalhães cometeu o erro crasso que o impediu de completar a viagem de circunavegação, deixando o desiderato para Del Cano. Magalhães envolveu-se numa escaramuça, caindo às mãos do líder local Lapu Lapu. As Filipinas tornar-se-iam colónia espanhola e posteriormente dos Estados Unidos da América. Os espanhóis edificaram uma estátua em honra do navegador, sendo que após a independência os filipinos erigiram, a escassos metros de distância, um monumento em honra de Lapu Lapu. Ambos os monumentos convivem pacificamente, constituindo, juntamente com a figura do Santo Niño, o santuário que os filipinos de todas as ilhas desejam algum dia visitar.

Explique-se lá isto aos caçadores de fantasmas que querem reescrever a história. E já agora explique-se-lhes porque é que os filipinos nunca quiseram mudar o nome do país, que foi atribuído em honra de Dom Filipe I de Portugal (II de Espanha).

Inúmeros exemplos similares poderiam ser referidos. Um exemplo paradigmático é Cochim na atual República da Índia, outrora primeira capital da Índia Portuguesa, onde Vasco da Gama faleceu e foi sepultado antes de vir a ser transladado para a europa em meados do século XVI. O seu nome está espalhado em todo o lado da cidade: praças, cafés, lojas, empresas etc. Qual Parque das Nações Indiano!

É intrigante que sejam os países em vias de desenvolvimento a querer preservar os elementos marcantes da sua história, certamente com uma perspetiva crítica e sem saudades do passado, contudo afastando o radicalismo de certa elite ocidental que consegue descobrir meia dúzia de moinhos de vento pela frincha de uma porta mal fechada.

Não gosto de idolatrias, porém devo dizer que a escolher uma figura, Nelson Mandela poderia ser alguém a quem o epíteto encaixaria próximo da perfeição. Com uma história pessoal de luta e sofrimento, ao contrário dos guerreiros de sofá de pele de camurça, este nunca enveredou pelo radicalismo. Uma vez chegado ao poder foi magnânimo, sonhando com um país arco-íris, com direitos e deveres iguais para todos. Espero que os monumentos em honra de Vasco da Gama e Bartolomeu Dias continuem a conviver por longos anos com as estátuas de Mandela na Província do Cabo, que um dia mudou das Tormentas para Boa Esperança, e hoje temo que possa regressar ao triste nome original.

Obviamente a história deve ser analisada criticamente, mas com os devidos distanciamento e enquadramento temporais. Uma visão anacrónica não traz benefício algum, nem pretende ajudar ninguém. Trata-se apenas de um mecanismo intelectualmente vazio e preguiçoso cujos objetivos são tribalizar e gerar ódio, tentando dividir para reinar, servindo-se de um exército de urbano-depressivos com mais canudos que saber.

Por fim devo referir um exemplo claro daquilo que, na minha opinião, deve ser a abordagem da história e dos seus monumentos. Em Auschwitz – Birkenau foram mortos milhares de judeus e não judeus, de polacos e não polacos. Segundo os paladinos do vanguardismo humanista atual, certamente a Polónia deveria destruir os campos de concentração do Partido Nacional Socialista. Felizmente os polacos foram mais sagazes, percebendo que tratando bem estes edifícios, dando-os a conhecer a milhares de pessoas que os visitam anualmente, estariam a fazer bem mais pela humanidade, do que enveredando pela fácil e inútil destruição  dos mesmos.

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