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Cultura, Literatura e Filosofia

HAVERÁ SEMPRE MEMÓRIAS A HABITAR OS SILÊNCIOS

Soni Esteves 

Há livros que são brisa suave, sopro morno de estio breve, mas outros trazem-me o rumor de vendavais. Por vezes, contam-me histórias tão fortes, ou tão simplesmente descabidas e desgarradas, que sinto nelas a vida a soprar-me para longe de mim, como se os meus pensamentos fossem folhas largadas da árvore e voassem sustentados nos braços do vento. É então que o meu presente brinca com as minhas memórias, e julgo que vem daí muito do meu conhecimento das coisas.

Comecei a construir este raciocínio, algo desconexo, após ter lido “O meu pai tem uma borracha na cabeça”, de Rui Zink. Para quem não leu, pertence à categoria de livros para crianças, e explica, de um modo simples, o que é a doença de Alzheimer. Essa pequena história —que não é nada pequena porque a grandeza de uma narrativa não se mede pelo número de páginas — foi uma das que fez dançar as ideias dentro da minha cabeça, trazendo-me memórias que nem sabia que tinha.

Eu, o meu pai e a minha mãe fomos visitar o padrinho do meu pai, um velhinho que eu já conhecia antes de ele ser tão velhinho assim. Eu devia ter uns oito, nove anos, ou talvez menos, não posso precisar, e não sabia, ainda, que a velhice pode aparecer quase de repente, e instalar-se como invasor inesperado em casa alheia.

Fomos recebidos em jeito de festa, como sempre acontecia. Encontramos o padrinho (eu e a minha mãe também lhe chamávamos assim, como se fosse uma espécie de legado) sentado nas escadas de pedra que levavam à casa da eira, uma velha construção de pedra, onde guardavam o milho, o feijão, ou o que a terra desse. O meu pai abraçou-o e, talvez estranhando a rigidez de um corpo que não se dava ao abraço, disse “Não me conhece, padrinho? Sou o João!” Um clarão terá passado naquela mente aturdida, porque se riu e fez perguntas que me pareceram naturais.

A madrinha, menos velhinha, apareceu de seguida, a sacudir o avental. Pequenina, com um sorriso capaz de iluminar a roupa escura que vestia, ralhava “Deviam ter vindo mais cedo, comiam com a gente.” “Não queríamos dar trabalho”, dizia a minha mãe. “Qual trabalho”, voltava a madrinha, e foi a correr preparar um daqueles lanches de aldeia que me ensinaram o sabor do pão de milho cozido em forno de lenha, da tripa frita, ou dos rojões no pote de ferro.

O padrinho não quis acompanhar-nos. Contou a madrinha que ele andava mal da memória, ficava para ali sentado, a aproveitar aquele sol de inverno, até se esquecia de comer. Às vezes parecia que não a conhecia, e até perdia a ideia dos filhos que tinha na França, uma tristeza…

Curiosa com aquela estranha história, acabei por deixar a mesa e fui fazer-lhe companhia.

“Tu de quem és, menina?” Eu estranhei aquele esquecimento, mas sentei-me ao seu lado e ali ficamos, numa conversa feita mais de silêncios do que de palavras, e eu a responder-lhe, vez em quando, “sou a filha do João”.

O padrinho do meu pai tinha uma borracha na cabeça, e eu não sabia! (Não sabia porque ainda não conhecia o Rui Zink, nem o livro dele que, por acaso, ainda nem sequer tinha sido escrito.) Se eu soubesse, talvez tivesse desenhado os filhos que ele tinha na França, o rosto da mulher, e os seus pratos preferidos, para ele não se esquecer de comer. Podia até ter desenhado o seu retrato, antes que ele esquecesse quem era…

Mas eu não sabia a história da borracha que apaga memórias, por isso, limitei-me a comungar da quietude distante que emoldurava aquele rosto como se fosse um quadro de parede. E assim o olhava, distraída e atenta, a perguntar-me para onde iria ele, quando emudecia e me olhava sem me ver, até regressar, dali a nada, já esquecido de quem éramos.

Hoje, que surpreendo o mesmo olhar, a mesma evasão alheada, num rosto querido, de pouco me vale conhecer a existência da borracha que apaga memórias… os meus desenhos perderam a força da pureza inicial. Mas talvez me tivesse ficado, daqueles tempos, aquilo que eu, sem suspeitar, já sabia… a certeza de que nos silêncios moram imagens que nenhuma borracha consegue apagar por inteiro. Talvez eu suspeitasse que, por vezes, basta uma presença para colorir pedaços soltos de vida, ainda que por instantes.

Então, olho aquele corpo curvado pelo peso de tanta existência, o rosto que o tempo, ironicamente, marcou de memórias, e tento encontrar a mulher por detrás daquele afastamento todo. E por ali fico, numa espera muda, a vigiar-lhe as ausências, só para poder rir com ela nos breves regressos.

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