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Saúde e Vida

A COMORBILIDADE NA DEPRESSÃO

Ana Miranda

A depressão é uma síndrome psiquiátrica, altamente prevalente na população, por via de regra. É uma condição de saúde diagnosticável e distinta dos sentimentos de tristeza, medo ou stress que podem acometer qualquer sujeito, em quaisquer momentos de vida.

Quando falamos de comorbilidade na depressão, referimo-nos à coexistência da patologia em questão, com outra/outras doenças clínicas. Nesta “imiscuidade”, adquirem destaque, as doenças cardiovasculares (e.g. hipertensão arterial sistêmica, enfarte de miocárdio), endócrinas (e.g. diabetes mellitus, distúrbios de tiróide, obesidade, doença de Cushing), neurológicas (e.g. epilepsia, Parkinson), renais (e.g. insuficiência renal, pielonefrite), oncológicas e psicológicas (e.g. transtornos bipolar e de ansiedade).

Não obstante, apesar da elevada incidência da depressão, em populações clínicas, esta ainda é subdiagnosticada e, quando detetada, debelada, amiúde, de forma inadequada, comprometendo a evolução médica.

São vários os estudos científicos que apontam para um decréscimo na aderência às recomendações clínicas, piora da qualidade de vida e aumento da mortalidade em pacientes que, para além da doença crónica de base, apresentam sintomas depressivos.

A avaliação da sintomatologia depressiva é fortemente dificultada pela superposição dos sintomas da patologia clínica (e.g. dor, fadiga, insónia, lentificação, anedonia, inapetência), pela percepção das condições adversas da doença (e.g. baixa auto-estima e desesperança) e pela conjuntura do internamento, quando ocorre. Também os critérios intuitivos, associados à desproporcionalidade da intensidade e/ou durabilidade dos sintomas depressivos e dos sintomas sine qua non da doença crónica, podem conduzir o raciocínio do profissional de saúde para conclusões desacertadas.

A contabilização dos sintomas depressivos, pese embora, possam ser explanados pela patologia clínica, revela-se crucial na aquisição de diagnoses válidas e salutíferas. É certo que esta abordagem inclusiva gera mais diagnósticos falso-positivos, porém diminui o risco de não se diagnosticar um quadro depressivo oligossintomático, melhorando o prognóstico do paciente. De notar que a patologia clínica pode, efetivamente, causar o quadro depressivo (abordagem etiológica). Determinadas doenças aumentam o risco de desenvolvimento de um transtorno de humor, e muitos enfermos podem apresentar uma significativa vulnerabilidade biológica para a manifestação de sintomatologia depressiva. Como tal, são indispensáveis o correto tratamento da patologia clínica de base, assim como a preconização do tratamento depressivo (e.g. TCC), para uma efetiva remissão de sintomas. As doenças clínicas físicas e a depressão quase sempre se retroalimentam, interagindo para criar uma situação ominosa.

A comorbilidade na depressão afigura-se um grande desafio para muitos médicos de clínica geral, psicólogos e psiquiatras. A sua prevenção e tratamento passarão, então, pelo aprimoramento dos mecanismos de avaliação dos pacientes, com o acrescento da figura do psicólogo nos centros de atendimento primários (consciencialização da relação entre a doença física e depressão, com enfoque igualado nas queixas somáticas e nas queixas cognitivas/afetivas), o que culminará, por sua vez, em diagnósticos mais precisos e terapias mais eficazes.

Não se pretende, com isto, ataviar a componente biológica da doença clínica; antes, reforçar a urgência de ligação da psicologia (postura recalcitrante) às especialidades médicas, na construção de prognoses mais benfazejas.

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