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Cidadania e Sociedade

ATÉ UM DIA, QUEM SABE!

Inês Paulino

A notícia sobre o projeto #EstudoEmCasa surgiu quando já estava em casa desde o final do 2º período e após o choque e a sensação de vazio de perceber que na semana seguinte não ia estar com os meus meninos, os mais pequeninos da pré e os mais graúdos do 1ºciclo.

Como andam os animais da casa da Mosca Fosca| Aula 1

Acho que devo dizer, para contextualizar algumas aulas, que sou bióloga de formação de base, tenho mestrado na área e sou professora de biologia e geologia (grupo 520). Como nunca foi possível lecionar nesse grupo, agarrei na minha formação e experiência em educação ambiental e abracei a oportunidade de ser professora de ciências experimentais no Colégio Corte Real. Passado o choque de estar em casa, peguei em todo o meu conhecimento e iniciei a preparação das minhas aulas online através de desafios semanais para as diferentes turmas que tenho.

“Sílvio, o guardador da água e do sol”| Aula 2

Eis quando surge um convite para uma reunião à distância com a direção, em grupo de docentes foi-nos dado a conhecer o projeto que veio a chamar-se #EstudoEmCasa, inicialmente tinha por objetivo levar a escola àqueles alunos que não tinham acesso à internet e cujo contacto com o professor titular fosse através dos correios ou por telefone e que as aulas online não fosse uma opção.

“De onde vem e para onde vai o camelo?”| Aula 3

Descobrimos também como seriam as gravações, inicialmente no colégio e mais perto da data passou para a RTP, o que era pretendido da nossa parte (o 1º e 2º ano); logo seriamos “livres” na escolha das temáticas a abordar dentro do que são as aprendizagens essenciais e na abordagem que daríamos às aulas.

Conhecendo as Raízes| Aula 4

No meu caso achei o projeto muito interessante, sentindo orgulho por sermos, enquanto país, capazes de continuar com o ano letivo. Foi-nos dada liberdade para declinar ou aceitar o projeto, e aceitei, não me preocupei, naquela altura, com a exposição ou com o que daí advinha para a minha prática docente, pois o sentido de missão devido à situação da pandemia era superior.

Avós e os Perigos na Rua| Aula 5

Já me perguntaram como correu, foi tudo um “mar de rosas”? Não, de todo! foi difícil a partir do momento em que por um lado a DGE começou a ser extremamente exigente com prazos e com temáticas a abordar, por outro quando a dimensão do projeto extrapolou o objetivo inicial e a pressão aumentou quando iniciou o ano letivo e as aulas online para as minhas turmas.

“Nós, no mundo”| Aula 6

Voltando à reunião, definimos grupos de trabalho (no estudo do meio tinha a minha colega Patrícia Branco) e os “professores pivot” para as diferentes disciplinas. Tínhamos uma semana para preparar as duas primeiras aulas (a primeira semana) e o objetivo daí para a frente era estarmos uma semana à frente do que passava na TV. Decidimos como primeira temática os animais, fazendo a abordagem para um 1º ano e 2º ano.

“Corre, corre para a tecnologia”| Aula 7

“Olá, eu sou a professora Inês Paulino e sou a vossa professora de estudo do meio e cidadania” esta foi a frase com que iniciava as minhas aulas. Aquele primeiro dia de gravação, a 14 de abril, uma semana antes de iniciar o projeto na TV, para mim teve um misto de emoções, a minha querida avó Emília tinha falecido dois dias antes, foi tudo muito rápido e imponha-se a decisão, fazia a aula ou não?! A minha família apoiou como sempre e os colegas também e lá fui eu, gravar.

O ambiente que deixaremos para os pássaros vindouros| Aula 8

Na minha prática habitual e porque aplico o método científico e com ele o IBSE, o levar material para ver, para mexer, para absorver e o questionar, é o normal. E como uma das premissas era “ser nós próprios” mantive essa característica. Este projeto acabou por ser uma oportunidade de mostrar que as ciências e o estudo do meio, neste caso, pode ser abordado através da experimentação como é natural, mas também de trocas de ideias, do problematizar com os nossos alunos (que ali tentei fazer à distância) o que enquanto disciplina do 1º ciclo é fundamental para que as crianças tenham um pensamento critico e sejam curiosas pelo mundo que as rodeia. Depois era também a oportunidade de passar uma mensagem sobre a necessidade de preservarmos o planeta em todas as suas vertentes e aí foi a bióloga dentro de mim prevaleceu.

O Tempo das Meninas Gotinhas de Água| Aula 9

Outro ponto importante, foi a equipa da Fremantle. Foi desde a primeira hora uma peça fundamental em todo o processo, sem aqueles operadores de camara, sem a produção, sem todos os técnicos presentes, não teria sido o mesmo.

Na primeira aula a curiosidade pelo que ia fazer e mostrar, o responder, atrás das camaras às questões que direcionava para as crianças lá em casa foi muito importante. Falar para o vazio e quereremos ser nós próprios, habituados a respostas, a discussões com os nossos alunos, não era fácil.

Participação na Edição Especial Preço Certo – professores #EstudoEmCasa

Lembro-me de uma aula em que, na noite anterior o cansaço e a ansiedade me assolaram, ao chegar ao estúdio vê-los e conversar ajudou imenso a que tudo corresse bem. Ou, por exemplo, no meio de uma aula em que se viajava pela cultura do mundo, onde surgiu diferentes danças, ver os técnicos a dançar e a sorrir, toda essa deu-me energia contagiava aula após aula. Ou na última aula em que se não fossem eles por detrás das camaras a acalmar-me, teria chorado, pois os nervos e o ser o final de tudo, mexeu comigo. Aqui fica o meu eterno agradecimento a todos eles.

Ao longo dos três meses de gravação muito aconteceu, coisas com as quais enquanto bióloga e professora, não concordei, mas que ao longo do tempo deixaram de ter importância pois a finalidade eram as crianças, e a sua aceitação das minhas aulas foi fantástico, elas sim foram o meu objetivo, não os pais, não os seus professores (que tão importantes são) mas sim as crianças, os meus alunos. Há crianças que me reconhecem na rua pela voz (pois uso máscara) e o seu olhar e sorriso vale imenso.

Quando comecei a lançar desafios, nunca me passou pela cabeça receber notícias de volta, se as crianças não tinham internet como me poderiam chegar noticias em tempo útil? Mas o projeto foi tão bem aceite e as noticias chegaram às centenas semanalmente e aí a pressão e o nervosismo cresceram a cada aula, pois não as queria desiludir e porque para mim 30 minutos era pouco, por exemplo abordar a temática das plantas (tema que me é muito querido) era impensável, mas fi-lo e o retorno foi fantástico. Recebi cartas, vídeos e muito, mas muito carinho dos meus meninos que vão ficar eternamente no meu coração.

Para terminar este artigo, deixo aqui o meu profundo agradecimento à minha família que teve de gerir o meu mau humor, a minha ansiedade e a minha cabeça a ferver de ideias que não poderia realizar, à Patrícia Branco pelo trabalho de equipa e de voz amiga e a todos os outros colegas envolvidos neste projeto.

Foi um projeto que adorei fazer e que me encheu, em tempo de pandemia, o coração.

Até um dia, quem sabe!

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