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Cidadania e Sociedade

UM CONFINAMENTO DESCONFINADO EM PROL DA EDUCAÇÃO

António Coito

(Aluno 9.º ano que integrou a equipa do #EstudoEmCasa)

Começou o mês de abril, permanecia há uns dias em casa com a minha mãe. Eu que já estava há cerca de 15 dias a trabalhar à distância e a minha mãe que estava de portas fechadas, uma vez que trabalha por conta própria na área da estética, e as orientações do nosso governo não permitam que trabalhasse. No dia 13 de março já não fui à escola e algo me dizia que assim seria até ao fim do ano letivo. Afinal, mesmo sem aulas presenciais, tive de voltar ‘’ao terreno das operações’’. Um novo desafio surgiu e em tempos de pandemia, foi difícil tomar uma decisão.

Fui contactado pelo diretor do agrupamento de escolas que frequentava (Agrupamento de escolas Fernando Casimiro Pereira da Silva – Rio Maior), no sentido de haver a necessidade urgente de me fazer uma proposta, enquanto aluno do 9ºano. Pouco fiquei a saber! Apenas fiquei com a informação de que a nossa escola tinha sido selecionada para produzir recursos de apoio à aprendizagem que seriam transmitidos na televisão (uma espécie de telescola). Ainda não tínhamos confirmação do local onde se iria gravar, mas tudo indicava que fosse na nossa escola. A proposta era muito clara. Se eu estaria disposto a fazer parte deste projeto, dando o meu contributo na edição de vídeos, como já fazia em clube escolar, em aparecer nos mesmos e, em último caso, aparecer nessas ditas aulas na TV.

A minha mãe, mesmo ciente de todos os riscos, apoiou-me a 100%. Disse-me que teria de ter todos os cuidados, mas que para mim, a nível pessoal e profissional poderia ser muito benéfico. No período de uma semana fui informado de tudo. Ficou decidido que as aulas seriam gravadas nos estúdios da RTP em Lisboa, e a nossa escola ficaria responsável pelos recursos dos 3º/4º e 9ºanos. Estava com muito receio, mas o facto de as gravações se realizarem num estúdio deixava-me mais descansado quanto aos cuidados de distanciamento e desinfeção face à COVID-19. Conversei com o meu pai e ele também me apoiou na decisão final. A minha resposta foi imediata. SIM!

Consegui perfeitamente conciliar o trabalho da escola com este projeto. Foi tudo uma questão de organização. O primeiro trabalho que realizei foi a gravação de um vídeo e a respetiva edição. Foi a gravação e edição da confeção dos famosos ‘’beijinhos doces’’ das aulas de português do 3º/4ºAnos. Foi um grande obstáculo. A primeira versão que tinha feito tinha 5 minutos e 46 segundos, e no meio televisivo, um vídeo com esta duração é muito extenso. Para mim, não foi tarefa fácil. Tendo eu a consciência de que não sou profissional na área…! No entanto respirei fundo e depois de várias alterações, lá consegui tirar um minuto e meia dúzia de segundos. Após este primeiro trabalho, muitos outros surgiram.

Gravei várias vozes para animações, nomeadamente para a primeira aula de Ciências naturais e físico-químicas do 9ºano, em conjunto com uma colega de turma, a Sofia Fragoso. A disciplina em que apareci mais vezes foi na matemática do 9ºAno. Desde a voz dos questionários aos vídeos explicativos, fiz de tudo um pouco. A maioria destes trabalhos tiveram de ser feitos na própria escola, onde só se via professores e mais professores a trabalhar no sentido de garantirem que as aulas ficavam ricas e cativantes naqueles 30 minutos de antena. Cada uma das pessoas que participou neste projeto, mas principalmente aqueles que deram a cara merecem um aplauso muito grande.

Todos sabemos que do outro lado da televisão estavam alunos, pais e ainda profissionais da área que estavam sempre prontos a fazerem críticas, fossem estas construtivas ou pejorativas. No primeiro dia de emissão das aulas, fiquei com a televisão do quarto ligada ao lado do meu computador. Aquela trilha sonora de abertura de cada aula não me saía dos ouvidos, e com o passar dos dias, tornou-se uma rotina. O #EstudoEmCasa estava a começar. A maioria dos professores que davam as aulas ao meu ano estavam neste projeto. As aulas assim tinham outro sabor. Só faltava o resto da malta da turma para estarmos como antes. Já tenho tantas saudades do ambiente de sala de aula. Foi gratificante ver que os ‘’nossos’’ estavam a dar o seu melhor e ver um trabalhito ou outro da minha autoria, perdidos em algumas das aulas. O tempo foi passando e chegou a hora de aparecer à frente da câmara. Os professores de matemática do 9ºano, Paulo Almeida e Susana Almeida fizeram questão de levar a sua equipa à penúltima aula e apresentá-la ao país. Foi uma experiência tão enriquecedora. A dimensão do estúdio, a equipa da RTP/Fremantle…tudo excecional. O mundo da televisão sempre me fascinou, e quando este se conjuga com a escola, uma das minhas grandes paixões, torna-se a cereja no topo do bolo.

Houve dois espaços que me deixaram muito feliz e sensibilizado. O primeiro, foi aquele cantinho da língua gestual portuguesa. Tinha começado recentemente um curso de LGP online, e fiquei radiante com tudo. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Sónia Carvalho e a Rita Belicha e mais tarde, via Facebook, a Marta Silva. Todos os intérpretes de LGP estão de parabéns. Uma grande luta para conseguir fazer chegar o ensino a todos, mesmo àqueles com menos facilidades. Vi que houve muito esforço, persistência e luta. O segundo, foi a régie. Foi aliciante perceber que ali tanta magia se faz… Naquele dia gravaram-se a aulas 17 e 18. Entrei em cena na aula 18, embora tenha permanecido sentado numa cadeira do estúdio durante as duas aulas. Já tinha saudades… Nós entrámos quando nos foi dada permissão. Agora entendo a angústia de um professor. Primeiro acende uma câmara, depois outra e assim sucessivamente. Afinal, nenhum de nós teve formação para lidar com as câmaras, e como disse a minha professora de português logo na primeira aula, ‘’Não sou profissional de televisão, aliás, nenhum dos professores incluídos neste projeto o é’’. E mais uma vez, a trilha sonora não me saía da cabeça. Mas, para além desta grande viagem, tive de a saber conciliar com as minhas aulas via zoom e o meu trabalho individual. Para mim, foi horrível. Entendo perfeitamente a necessidade de continuar a garantir o ensino numa situação destas, e continuo a dizer que muito se conseguiu num curto espaço de tempo e dadas as circunstâncias, mas sempre gostei de estar numa sala de aula a ouvir o professor, a acompanhar o seu raciocínio. Os exames do 9º foram suspensos.

Foi uma decisão acertada e enalteço os alunos do 11º/12º que tiveram de voltar para lutar e ir em busca dos seus objetivos, principalmente, o prosseguimento de estudos. Como todos sabemos, embora os professores tenham estado disponíveis para quaisquer dúvidas, este tipo de ensino à distância exige uma grande capacidade de autonomia e responsabilidade por parte dos alunos. Aspetos que nós, crianças e adolescentes ainda não dominamos com muita facilidade. Vivemos numa sociedade em que há muitos facilitismos, e são poucos aqueles que têm noção das dificuldades que existem para conseguir chegar mais longe e da postura a adotar face a situações como esta e, por isso mesmo, este período foi de grande aprendizagem para todos nós. Atualmente, encontro-me de férias e tenho refletido muito em função daquilo que será o próximo ano letivo. Fico um pouco receoso e apreensivo quando vejo as medidas que estão a ser pensadas. Não me deixa de todo agradado ter aulas presenciais e não haver distância de segurança. Não tentem enganar os pais e os alunos. A escola é feita de contacto físico, de afetos, de proximidade, e jamais será possível manter distâncias de segurança. Por outro lado, a sugestão da DGS em colocar dois alunos por carteira deixa-me ainda com mais dúvidas, uma vez que exige uma distância ainda mais curta, não respeitando o tal metro mínimo de distância.

De qualquer forma, as aulas terão de retomar, porque na verdade é essencial nos adaptarmo-nos a esta nova realidade e seguir em frente.

Em suma, realço a importância de todo este projeto para a minha vida e para vida de todos aqueles que fizeram parte dele, incluindo os pais e alunos que estiveram do outro lado do televisor, mesmo que tenha sido num contexto menos bom. Desenvolvi competências que são transversais a qualquer área disciplinar e que vão além daqueles que são os conteúdos das diversas disciplinas. Aguardo pelo próximo ano letivo, em especial por ser o começo de uma nova etapa (10ºano) e já que a vida é feita de obstáculos, só me resta ultrapassá-los!

 

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