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Saúde e Vida

MÃOS LAVADAS EM PENSAMENTOS QUE A PANDEMIA SUJA

Ana Marinho Soares

Os tempos que atravessamos predispõem a que algumas pessoas adoeçam mais facilmente. Quem apresenta tendência para a doença mental, vê-se agora em terreno inóspito e as ferramentas inatas que possui podem não ser suficientes para seguir em frente sem ajuda. Muito se tem falado nestes últimos meses sobre depressão. Hoje escreverei sobre outra doença mental que também pode causar muito sofrimento e que pode manifestar-se e agravar-se envoltos em hábitos e medos nestes tempos de pandemia: o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

“As minhas mãos ainda não estão bem lavadas”… “vou lavar novamente as mãos”… “não posso tocar em nada”… “tenho feridas nas mãos de as lavar”…

O TOC caracteriza-se por dois elementos: a obsessão e a compulsão.

Por obsessão compreendemos os pensamentos, as ideias, as imagens ou os impulsos intrusivos, repetitivos, indesejados e inaceitáveis. Estes são reconhecidos como absurdos e originam resistência subjetiva, contudo essa resistência vai diminuindo ao longo do tempo e à medida que a doença agrava. Estes elementos obsessivos provocam intensa ansiedade, e são reconhecidos como próprios (e não provenientes do exterior). Há, portanto, uma atribuição interna.

Em termos de forma a obsessão pode-se concretizar em: ideias obsessivas, ruminações obsessivas, dúvidas obsessivas, impulsos obsessivos ou imagens obsessivas.

A dimensão da obsessão a que as pessoas com esta predisposição se encontrarão mais suscetíveis, será a obsessão pela sujidade e contaminação. É, no entanto, fundamental explicar que a dimensão da obsessão pode ser muito variável, passando por situações de carácter religioso, de sexualidade, de acumulação, impulsos agressivos e de ordem e simetria.

O outro elemento que caracteriza o TOC é a compulsão. A compulsão corresponde a comportamentos ou atos mentais repetitivos que surgem em resposta a uma obsessão. Se por um lado a compulsão vai diminuir a ansiedade causada pela obsessão, por outro lado vai ser prejudicial podendo causar lesões diretas (por exemplo feridas nas mãos) e de interferir na vida do doente (por exemplo pelo tempo que requer). A compulsão da lavagem das mãos está incluída nos rituais de limpeza, mas há vários outros tipos de compulsões. As compulsões mentais, os rituais de simetria, ordem e alinhamento, os rituais mágicos, as repetições, confirmações e controlo e os rituais de contagem são outras apresentações.

Frequentemente um doente com TOC apresenta vivências de culpa e um sentido excessivo de responsabilidade pessoal. Tem ainda por características a meticulosidade, o perfeccionismo, a intolerância à ambiguidade e incerteza e a excessiva preocupação com o controlo dos próprios pensamentos.

O TOC atinge 2% da população mundial e 4% da população portuguesa. Está destacada pela Organização Mundial de Saúde entre as dez patologias mais incapacitantes. Esta doença afeta na mesma proporção homens e mulheres e a idade média de início é por volta dos 20 anos. Apenas 14- 56% dos doentes procuram tratamento.

Há assim um estímulo (por exemplo evicção da contaminação por sars cov-2) que leva à obsessão (por exemplo ideia repetida de que as mãos podem estar contaminadas) que vai trazer ansiedade e sofrimento. O doente vai encontrar alívio temporário da ansiedade e do sofrimento numa compulsão/ comportamento ritualizado (lavar as mãos), entrando num ciclo vicioso (lavar as mãos vezes e vezes sem conta) que poderá levar ao aparecimento de feridas nas mãos e interferir na funcionalidade e qualidade de vida da pessoa em causa.

Apesar de todos devermos lavar as mãos frequentemente, é importante distinguir quando o aceitável deixa de o ser e se torna patológico.

Se lavar as mãos é uma compulsão, se a ideia de que as mãos estão sujas surge na sua mente de forma obsessiva, e lhe traz sofrimento e disfunção no seu quotidiano, então precisa de ajuda médica.

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Na mente um pensamento rebelde e intrusivo

Tão inaceitável como indesejadamente repetitivo.

Na busca da paz encontrou um falso amigo:

Agarrou-se e foi agarrada pelo comportamento compulsivo

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E naquela ansiedade que não mata mas moi

Ah melhor se matasse!… Porque perturba, doi

Rituais minuciosos de simetria, alinhamento

Desordenam toda a vida, do já baralhado pensamento

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Naquela ideia continua de sujidade e contaminação

Nenhuma água conseguia lavar da cabeça a confusão

E no ciclo vicioso do comportamento ritualizado

A atormentada mente perpetua o seu doentio e triste fado

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