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Cultura, Literatura e Filosofia

O MUNDO DO ARTISTA E O RESTO

Regina Sardoeira
Ao longo da história, são muitos os artistas que, por razões deles, apenas, decidiram destruir a obra criada, considerando-a, vergonhosa ou  indigna. Outros produziram escassamente, porque a vida não lhes deu o tempo suficiente ou porque precisaram de dividir-se entre a profissão e a vida artística. Outros não destruíram a obra mas pediram a familiares e amigos que nunca a publicassem.
Dentre estes últimos, destacareii Franz Kafka, escassamente publicado em vida, que pediu, antes de morrer, ao seu amigo Max Brodi,que destruísse a sua obra. Ele não o fez e é por isso que tivemos acesso a livros extraordinários, como, por exemplo, O Processo. Vladimir Nabokov, o célebre autor de Lolita, deixou à mulher o seu livro incompleto, O Original de Laura, pedindo-lhe que o destruísse. Porém, ela guardou-o para o resto da vida, passando-o, após a sua morte, para o filho, que, depois de muitas leituras e críticas, permitiu que fosse publicado, em 2009. Tornou-se notório, então, que o autor (que era um perfeccionista) tinha razão quanto ao desejo de não querer que saísse uma obra sua, ainda em esboço.
Nicolau Gogol, o célebre autor russo, deitou para o fogo a segunda parte do célebre romance Almas Mortas, tendo morrido, alguns dias depois em delírio e com grande sofrimento.
Claude Monet destruiu, por completo, em 1908, o conjunto das obras que tinha realizado para uma exposição e representavam três anos de trabalho.
Piotr Ilitch Tchaikovsky queimou as partituras da ópera O Voyevoda, logo a seguir à estreia, deixando intacta somente, a parte instrumental. Esse facto permitiu que a obra fosse reconstruída devido ao trabalho de Aleksander Ziloti, um pianista que com ele trabalhou.
James Joyce, Francis Bacon são dois exemplos, ainda, de artistas que destruíram parcialmente a obra, não querendo partilhar certas criações suas com o público.
A pergunta é: teremos o direito de escutar o poema sinfónico destruído de Tchaikovsky ou de ler o romance inacabado de Nabukov ou mesmo as obras geniais de Kafka? Não deveriam ser respeitados os desejos dos artistas a quem as obras pertencem, por direito? Ou não será assim, de facto, e então, tudo o que é criado por alguém, no mundo da arte, passa a pertencer a todos e não ao seu criador?
Um exemplo paradigmático vindo de um escritor, pouco conhecido, é, justamente, Albert Cossery. Cossery (Cairo19132008) foi um escritor egípcio em língua francesa. Considerado um mestre do escárnio, Albert foi também um profeta do prazer e da preguiça. Desde 1951 habitou o mesmo quarto do hotel La Louisiane situado no coração de Saint-Germain-des-Prés em Paris. Foi amigo de escritores como Boris VianJean Genet, Henry Miller e Albert Camus, sendo admirado por todos eles. Porém, o seu desejo de liberdade era de tal ordem que dedicou a vida a uma prática hedonista, de passeio e reflexão e diz-se que apenas escrevia uma frase por semana. Deixou, somente, oito romances escritos que são verdadeiras obras-primas. Poderemos, acaso, criticá-lo por ter sido, deste modo, tão pouco produtivo, em 60 anos de carreira?
A vida artística não é linear como serão outras carreiras humanas. Não é possível regulamentar o acto criador artístico, fazendo-o  acontecer a despeito da vontade íntima e quantas vezes misteriosa do autor.
Há muitos que se dizem artistas – e não são. Quando muito, tornaram-se técnicos disto ou daquilo, executam, na perfeição, esta ou aquela actividade, porque treinaram arduamente. Quando o fazem, não põem nesse acto nada de seu, repetem gestos e movimentos que de modo nenhum os representam.
Há quem chame artistas aos actores de cinema. Uns sê-lo-ão,, de facto,  na medida em que transcendem o seu próprio eu no acto de representar; outros fazem somente uma colagem rápida ao papel, sem despirem a sua própria máscara.
A propósito, evoco um dos maiores actores da actualidade, Daniel Day- Lewis, que precisou sempre de viver a personagem muito antes e adaptar-se realmente ao seu modo de ser e de estar e só assim acedia a representá-lo. O seu último filme,  Phantom Thread, realizado por Paul Thomas Anderson, onde dá vida a um reputado e excêntrico estilista, foi de tal modo intenso e melancólico que fez com que se retirasse mais rapidamente da arte. Para esse filme, e mesmo não sendo necessário, costurou, de raiz, um modelo Balenciaga. Só desse modo sentiu estar por dentro do espírito de um estilista, ainda que, no filme, não precise de costurar!
 
”Antes de fazer o filme, não sabia que ia parar de actuar. Paul e eu rimos imenso antes de filmar. Até que parámos de rir, porque ficámos sobrecarregados pelo sentimento de tristeza. Isso apanhou-nos de surpresa. Não notámos que tipo de coisa tínhamos criado. Foi difícil viver assim. Ainda é”, explicou Day-Lewis, na altura, à W. Magazine.
Eu compreendo esta atitude, do mesmo modo que sou capaz de assimilar a angústia de Gogol ou de Monet ou de Tchaikovsky, Kafka e Nabukov, quando destroem ou guardam para si as suas criações. A obra de arte é a própria alma do artista voltada para fora, exposta aos outros, sujeita a diversas apropriações. Como pode um artista vender a sua alma? Entrar numa forma de comércio em que o valor atribuído à obra depende de critérios de mercado?
Pessoalmente, recuso entrar nesse mercado insultuoso. Vejo por aí muitos auto-designados artistas, ou escritores ou poetas; e, quando acontece ler ou ver essas obras fico envergonhada… por eles..Deserto, então, desses palanques onde eles se perfilam, vendendo, distribuindo autógrafos, granjeando fama e dinheiro. 
E, no reverso da medalha, penso em Vincent Van Gogh ou em Friedrich Nietzsche que toda a vida desejaram que as suas obras fossem expostas ou lidas. Um necessitava do dinheiro das vendas para subsistir e nunca conseguiu expor; o outro queria espalhar pelo mundo a sua voz profética e salvar a humanidade do futuro e não teve os necessários leitores. Ambos enlouqueceram, solitários, e a fama póstuma deu, a um deles, o valor exorbitante em vendas de que nunca usufruiu; ao outro, a divulgação plena das suas extemporâneas ideias, em múltiplas e nem sempre correctas interpretações.
É assim o mundo do artista, do criador, desse que enfileira na senda dos imortais e raramente é reconhecido, ou compreendido ou respeitado – porque o resto do mundo não pode e nunca poderá compreendê-lo.

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