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Cidadania e Sociedade

IS THERE ANYBODY OUT THERE?

Luís Pereira 

Dia 1 de abril. Também conhecido como “Dia das Mentiras”. Foi nesse dia que, bem cedo, recebemos uma mensagem da Direção do nosso colégio, o Colégio Atlântico, a marcar uma reunião com caráter de urgência. O tema seria revelado apenas durante a própria reunião.

My daily routine| Aula 1

A notícia de que o colégio tinha sido convidado pelo Ministério da Educação para fazer parte do projeto da “nova Telescola” foi-nos dada com entusiasmo. Afinal de contas, não é todos os dias que uma instituição de ensino privado é convidada pelo Ministério da Educação para um projeto desta magnitude. Estaríamos a contribuir para que alunos de todo o país, sobretudo daquelas regiões mais isoladas e com maiores dificuldades de acesso a meios tecnológicos que facilitassem o ensino à distância, pudessem continuar a aprender e a manter o vínculo com a Escola. De imediato, o sentido de responsabilidade e de missão tomou conta e o convite foi aceite sem grandes hesitações.

My hobbies| Aula 2

Pode parecer imodesto, mas a verdade é que não me assustou a perspetiva de aparecer num ecrã de televisão. Não tinha qualquer experiência anterior em lidar com câmaras ou estúdios, no entanto, estava cheio de vontade de passar por essa experiência. Até podia correr mal no final, mas sentia-me preparado para, pelo menos, tentar.

Yummy! Favourite food and drinks| Aula 3 Outdoor and indoor activities| Aula 4

Uma vez que o Colégio Atlântico ficaria encarregue de todo o 2.º Ciclo havia a possibilidade de lecionar Português e/ou Inglês. Criámos grupos de trabalho e começámos logo a pensar nos conteúdos a lecionar. O primeiro passo seria pegar no programa das disciplinas e escolher os conteúdos a abordar nas 10 aulas que teríamos de planificar. Mas as diretrizes da tutela chegavam a conta-gotas e as dúvidas acumulavam-se: será que as 10 aulas deverão servir para fazer um resumo do ano letivo ou começamos “a meio” do programa e seguimos até ao final do mesmo? E onde estaria esse “meio”?

Portraits| Aula 5 Looking good!| Aula 6

Para além dessas questões tínhamos de pensar, igualmente, na forma como esses conteúdos seriam trabalhados. De acordo com a mensagem da nossa Direção, o Colégio tinha sido escolhido por ser criativo, inovador, moderno, aberto às novas tecnologias. Não poderíamos fugir àquela que era a nossa matriz. Lembro-me que nos primeiros dias (até à primeira reunião com a equipa da RTP Memória) andávamos cheios de ideias: faríamos vídeos super interativos, usaríamos o pano verde para colocar fundos incríveis nos nossos vídeos e, deste modo, parecer que estávamos em locais diferentes, criaríamos histórias e diálogos que depois representaríamos para tornar as aulas mais dinâmicas e divertidas. Seria espetacular!

Grande parte destas ideias caiu por terra quando tivemos a tal reunião com a RTP Memória. Não haveria pós-edição (nem pré-edição), não haveria “takes” (tudo teria de ser gravado à primeira e sem interrupções), as aulas teriam a duração EXATA de 30 minutos (nem mais nem menos). Nem um teleponto haveria para nos ajudar. “Não compliquem a vossa vida” e “Os materiais que vão usar devem ser simples para evitar dissabores que só vos deixarão mais nervosos” foram as mensagens mais repetidas pela Direção do canal nessa reunião. Expectation meets reality.

Jobs| Aula 7 All about my hero!| Aula 8

Depois deste primeiro choque com a realidade houve necessidade de voltar ao início. Ideias foram rasgadas, planos foram alterados. Entretanto, ficaram definidas as equipas que iriam trabalhar em cada disciplina. Eu ficaria com o Inglês, juntamente com o meu colega Bruno. Conhecemos as nossas “orientadoras” (a Carmen e a Aida) e metemos mãos à obra. As indicações da DGE continuaram a surgir a conta-gotas, mas tínhamos a vantagem de sermos dos últimos a gravar. As primeiras planificações avançavam muito devagar. Estava a ser difícil “darmos com a tecla”. Havia muitos fatores a considerar: o grau de dificuldade dos conteúdos lecionados e das atividades propostas; a qualidade e pertinência dos materiais a utilizar; a quantidade de informação a ser apresentada na aula; a forma de encaixar essa informação em 30 minutos sem correr o risco de ultrapassar esse tempo ou ficar aquém; a melhor maneira de abordar os diferentes domínios (Reading, Writing, Listening, Speaking) na mesma aula, etc..

Alguns dias antes de começarmos a gravar, o meu colega informou-me que não iria fazer parte das gravações. Estaria comigo na fase de planificação e estaria comigo em estúdio para dar força e apoio moral, mas não apareceria em frente ao ecrã. Apresentou-me os seus motivos que, obviamente, compreendi e aceitei. Não nego que não tenha ficado apreensivo com esta situação: por esta altura, já boa parte dos meus colegas tinham gravado as primeiras aulas e o feedback que davam da “parceria” e de como essa parceria resultava em estúdio era bastante positivo. Era reconfortante ter um colega com quem dialogar em aula ou que, pura e simplesmente, pudesse completar uma ideia se o outro professor “tivesse uma branca”.

A trip in the city| Aula 9

Mentalizei-me que teria de fazer as coisas funcionar, que não usaria desculpas caso algo corresse mal e segui (seguimos) em frente.

Como disse anteriormente, a questão de aparecer na televisão nunca me assustou particularmente (nem sei bem porquê!). Contudo, isso não significa que não estivesse bastante ansioso e receoso. Sabem qual era o meu principal medo? O relógio! Tive, desde o início, um pavor enorme que a minha aula terminasse antes dos 30 minutos definidos. O que faria se já tivesse dado tudo e ainda faltassem 2 minutos? Ou 5 minutos? A ideia assustava-me de tal forma que, no dia em que gravei as primeiras duas aulas, cheguei a escrever num papel TUDO o que diria durante as aulas e ensaiei cada aula meia dúzia de vezes de forma a garantir que as aulas durariam exatamente 30 minutos. Uma loucura! Claro que o resultado final acabou por ser diferente daquele que tinha ensaiado tantas vezes em casa, no entanto, foi uma experiência muito positiva e que guardarei sempre com muito carinho.

Falar sobre os meses que se seguiram é falar de um malabarismo constante que teve de ser feito entre obrigações parentais (tenho 3 filhos pequenos que também tiveram de estudar a partir de casa), aulas online com as minhas 4 turmas e preparação das aulas do #EstudoEmCasa. Não vale a pena entrar em pormenores aborrecidos, mas foi um processo longo, desgastante, cheio de avanços e recuos, e em que, no final, com o cansaço acumulado após um ano atípico e anormalmente extenso, já se tornara difícil disfrutar dos aspetos positivos. Quer isto dizer que a experiência foi negativa? Longe disso. Ter feito aquilo que fizemos, sem tempo de preparação, sem experiência, com pouquíssimas condições, é algo que deve orgulhar todos os profissionais que fizeram parte deste projeto. E esse orgulho ninguém mo poderá tirar.

Já muito foi dito sobre a experiência de estar em estúdio e dar aulas sem a presença dos alunos. Não tenho muito a acrescentar a esse respeito. Quem gosta de dar aulas sabe da importância dos alunos no processo ensino/aprendizagem. Por muita teoria que o professor domine, por muitas estratégias que conheça, é a convivência diária e prolongada com os seus alunos que vai trazer ao de cima o melhor (e, por vezes, o pior, verdade seja dita) de um professor. É o desafio, a empatia, o conhecimento crescente das necessidades dos nossos alunos, a vontade de ajudar, de não desistir, que nos fazem ser bons professores. Quantas e quantas vezes um simples olhar pela sala de aula foi suficiente para rasgarmos algo que tinha sido planificado por não estar a funcionar? Quantas e quantas vezes uma pergunta de um aluno foi o rastilho perfeito para uma discussão improvisada, mas enriquecedora? Ali, no estúdio, faltava esse “sal”. Claro que as mensagens que ia recebendo eram muito simpáticas e reconfortantes, todavia, ficou sempre esse amargo de boca por não ter à minha frente alguém que, imediatamente, me mostrasse o fruto do meu trabalho. Talvez numa próxima oportunidade, quem sabe.

Não posso terminar sem deixar agradecimentos sentidos a várias pessoas que contribuíram para que este barco chegasse a bom porto.

À Direção do meu Colégio, pela confiança depositada em mim desde o início, mesmo nos momentos mais difíceis.

Aos meus colegas, pelo exemplo de esforço, dedicação e espírito de sacrifício que foram demonstrando todos os dias e que me ajudaram a não fraquejar.

À equipa da Fremantle, pela boa disposição e disponibilidade total para nos ajudar durante as gravações.

À equipa de coordenadoras que trabalharam comigo, pela dedicação e simpatia demonstradas desde o primeiro dia.

Aos meus alunos (passados e presentes), pelo seu contributo ao longo destes anos para que eu continue a evoluir enquanto professor.

Em último lugar (mas em primeiríssimo lugar no meu coração), à minha família e, em especial, aos meus três filhos e à minha incrível mulher por toda a força transmitida e por ter sacrificado tanto para que eu pudesse concluir este projeto, enquanto continuava a trabalhar com as minhas turmas no Colégio.

See you next time!

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