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Cidadania e Sociedade

TELETEATRO – UMA MISSÃO (QUASE) IMPOSSÍVEL!

Joana Maria

Tudo começou com uma chamada do diretor do colégio onde dou aulas, o Colégio Atlântico. Estávamos em casa, em pleno confinamento há cerca de 1 mês, dávamos aulas via MS Teams e lançávamos desafios semanais aos nossos alunos (no meu caso, tinha várias turmas de 6º e 7º anos da disciplina de PTT, uma disciplina inovadora no colégio, que pretende unir Português e Teatro, de modo a aguçar o gosto pela leitura e escrita aos alunos que, cada vez menos, gostam de ler e escrever). Estes tempos foram desafiantes para toda a gente, mas sinto que a classe dos professores teve mesmo de se superar. Pessoalmente, tive de pensar muito sobre como dar aulas de Teatro online. As dúvidas já eram, portanto, imensas, quando surgiu então o dito telefonema, por parte da direção da minha escola. Queriam contar comigo para um novo projeto: a nova telescola. Os convites tinham sido feitos diretamente a algumas escolas e a escola onde sou professora foi convidada. Aos seus professores foi pedido que leccionassem todas as disciplinas de 2º ciclo e Educação Artística (do 1º ao 9º ano). O projeto surgiu, assim, como um pedido da Direção da minha escola, ao qual acedi, com vontade, determinação e motivação. Muita gente, mais tarde, me perguntou como tinha surgido este projeto, como tinha sido o casting ou como me tinha inscrito, quase como um papel para uma peça de teatro ou uma telenovela. Foi assim mesmo como aqui conto. Foi uma casualidade estar nesta escola este ano (entrei somente em Setembro passado), surgiu toda esta situação da pandemia, nasceu o desejo de se fazer um projeto escolar televiso que tentasse chegar ao máximo de alunos possível e houve escolas convidadas. Assim mesmo. Uma casualidade.

Dança e Teatro – Corpo Expressivo| Aula 2

Aquando do pedido do meu diretor, fiquei apreensiva e algo receosa com alguns fatores, como o desconhecido (como seria este novo formato da telescola?), a aceitação do público e a crítica social (até por parte de alguns colegas de teatro e da classe docente), o excesso de trabalho, a falta de tempo para a família e até para mim…

Começámos logo a organizar-nos e surgiram equipas de trabalho. Fiquei com Oficina de Escrita, com a minha colega Marta Almeida, professora de Português. Não a conhecia bem, só de vista e foi uma agradável surpresa! Começámos logo a dar-nos muito bem, a ter ideias e a sonhar com uma aula diferente, criativa, com teatros e dramatizações, formas inovadoras de abordar conteúdos, leve e apelativa para os alunos e para todos os que vissem esta disciplina na TV. Reunimo-nos logo nesse dia com as orientadoras da DGE que, sempre disponíveis e amáveis, nos foram ajudando desde este primeiro dia. Aí, começaram a surgir algumas questões: como seria o som? Se quiséssemos efeitos sonoros ou música ambiente, quem colocaria no ar? E quanto aos efeitos visuais? Quem desenharia os conteúdos que surgiriam no ar? E acerca de vídeos? Imaginámos uma régie ao nosso dispor, técnicos a cumprir o que imaginávamos para as aulas, sempre com o aval da DGE, com a duração exata de 30 minutos semanais. Ninguém sabia muito bem os moldes do projeto, nem como iria tudo acontecer e, ao mesmo tempo que isso nos inquietava, também nos fazia (a)perceber que todos estávamos nisto pela 1ª vez, tudo era novo e único e precisava de ser pensado. Até que surgiu mais um convite, o de integrar a equipa de Educação Artística, também constituída por professores da minha escola – professores de Educação Visual, Dança, Música e eu, de Teatro. Assim, quando dei por mim, num espaço de 2 dias, estava na nova telescola, em duas equipas distintas de trabalho, duas disciplinas diferentes, dois desafios gigantes. Nas Artes, o processo não era promissor: unir quatro áreas artísticas em 2 blocos de 30 minutos semanais, com conteúdos do 1º ao 9º ano. Como assim?! São idades muito diferentes, que precisam de desafios adequados à sua fase de desenvolvimento e às capacidades de cada um. Ainda assim, era melhor os alunos terem estas aulas do que nenhumas, pelo que mais valia tentar.

Educação artística| Aula 4

Chegou o dia da reunião com a RTP, o tão esperado dia em que tiraríamos todas as dúvidas e perceberíamos como tudo se iria passar: não haveria tempo para qualquer tipo de treino ou ensaio, não haveria nem pré-edição, nem pós-produção, não haveria qualquer apoio em termos de imagem (cada professor deveria ter atenção à sua roupa, maquilhagem e cabelos), as aulas deveriam ter EXATAMENTE 30 minutos e tudo iria correr bem, tudo seria simples e fácil. Na verdade, disseram-nos, “era como se dessem aulas com uma câmara a filmar”. Acho que nem é preciso confessar que saímos todos em pânico daquela reunião. O que era suposto acalmar e tranquilizar levantou-nos ainda mais questões, mas não havia tempo para elas – era preciso começar por algum lado, planear as aulas e passá-las para o papel.

Contrastes – Música e Teatro| Aula 6

Devido à prática da representação, tinha já algumas noções sobre como se faziam gravações em televisão, mas estive sempre mais ligada ao teatro, o que não é bem a mesma coisa. Pode parecer falta de modéstia, mas nunca me preocupei muito com o facto de aparecer na televisão. Preocupava-me mais o tempo. Como gerir exatamente toda a aula em 30 minutos? Mais do que a falta de tempo, assustava-me o tempo a mais. Em televisão 1 minuto parece uma hora… mas tive de confiar!

Dança e Teatro| Aula 8

No primeiro dia de gravações, a realizadora fez-nos um pequeno briefing e foi só. De cada vez que íamos à RTP, tentávamos gravar duas aulas, o que nos obrigava  a prepará-las sempre antecipadamente, para cada dia de gravação (i.e., materiais validados previamente pela DGE, tais como guiões, roteiros, vídeos e PowerPoints), ter atenção às câmaras e, lá está, gerir o tempo. O essencial era tentar ser o mais natural possível, com simpatia, empatia e verdade, sem “teatros” e máscaras, como se de uma aula presencial se tratasse. Mas como se ensinava Teatro pela televisão? O desafio de tornar algo que é, por natureza, uma experiência coletiva e de grupo num registo individual e à distância parecia quase impossível. E, na verdade, não foi nada fácil, mas contei com um grande apoio da orientadora da DGE desta área, o que facilitou bastante, uma vez que eu era a única professora de Teatro da telescola e não tinha outro colega com quem falar ou me aconselhar.

Temas e Géneros – Artes Visuais e Teatro| Aula 10

A partir desse momento, deixámos de ter horários, tempos livres, de lazer ou de descanso. Ou eram os alunos das nossas escolas que tinham dúvidas nos desafios e nos mandavam mensagens, às quais importava responder e atender, ou era uma reunião fora de horas ou um email da DGE. Mentiria se dissesse que não foi duro! Foram 3 meses difíceis, com o tempo todo contado, muitas vezes com poucas horas de sono, a trabalhar para que tudo corresse bem. Tenho de admitir que o processo foi muito mais difícil do que julguei. Todos os professores que participaram no #EstudoEmCasa dão aulas há anos nas suas respetivas áreas e, muitas vezes, sentimo-nos postos à prova. Fazíamos cerca de duas aulas por semana (quatro, no meu caso, dado que participei em duas áreas – Oficina de Escrita e Educação Artística) de raiz: pensávamos no tema de cada aula, elaborávamos um guião/roteiro da mesma, bem como os materiais a levar para a gravação (vídeos, PowerPoints, áudios, etc.) e uma ficha/enunciado, a ser disponibilizada na internet para pais e professores. Desenhávamos cada aula de acordo com as orientações da DGE, que ia aceitando ou reprovando as nossas ideias, dando sugestões de melhorias ou caminhos alternativos. Muitas vezes, os emails eram um “pingue-pongue” que demorava dias. Só depois deste caminho a aula era finalmente validada e podia ser gravada. Por vezes, o aval era dado somente horas antes das gravações, o que não permitia uma preparação perfeita (para quem é perfecionista, este não era um bom projeto a participar). Estávamos todos muitos cansados e era preciso terminar o projeto. Depois de cada aula gravada, ficávamos com a sensação de estar a chegar cada vez mais perto. Para quem está habituado a dar imensas aulas por dia – e por semana! – na sua escola, é algo estranho preparar as aulas do #EstudoEmCasa, pois, como disse, o processo era muito demorado, dado que tínhamos de justificar cada vírgula, cada palavra, cada opção tomada, quase como num estágio pedagógico. Diversas vezes, sentimo-nos como se não soubéssemos dar aulas, inseguros e exaustos. Além deste projeto, convém não esquecer que cada um de nós tinha a sua escola, os seus alunos, as suas casas e famílias.

Espaço – Teatro e Dança| Aula 11

No entanto, apesar da exaustão, confesso que sempre me senti grata e honrada. Sentia que tinha o privilégio de estar a participar em algo grande, maior do que eu. Sentia-me uma mulher com uma missão e isso ia motivavam-me a continuar. Ao longo dos 3 meses de #EstudoEmCasa, recebi feedbacks muito positivos, tanto por parte de alguns colegas e alunos, como de familiares e amigos. Recebi muitos vídeos e trabalhos dos alunos, até de alguns que não conheço (mas que enviam através da DGE, por exemplo). Recebi também imensas mensagens de pessoas que não via há anos e que naquele momento, ao ver-me na TV, me mandavam palavras de apoio. É muito gratificante receber tanto carinho e apreço! Faz-nos acreditar que tudo valeu a pena e que chegámos aos alunos, que são, em abono da verdade, o verdadeiro público de todo este projeto.

Narrativa – Teatro| Aula 14

Recordar-me-ei sempre deste ano (acho que todos nos vamos recordar, não é?), o ano em que a vida parou, mas nós não! Num ano que começou tão mal, todos nos superámos e devemos estar orgulhosos do que conseguimos e de onde chegámos. Vou recordar-me sempre dos bons momentos, das muitas aprendizagens, da união e partilha entre os que navegaram nesta aventura, não só dos professores envolvidos, mas também dos técnicos, alunos, desconhecidos que se fizeram conhecidos e próximos, de todos.

Educação Artística| Aula 18

No final de tudo isto, fica o sentimento de missão cumprida e resta agradecer a várias entidades:

Em primeiro lugar, ao Colégio Atlântico, que sempre acreditou em mim e no meu trabalho, dando-me este “presente” para aos mãos, mesmo sendo ainda eu tão recente na escola;

Identidade – Artes Visuais, Dança, Música e Teatro| Aula 19

Em segundo lugar, aos alunos, quer os meus, quer os de todo o país, que se empenharam nestas aulas do início ao fim, trabalhando e realizando os desafios que planeei, elaborei e propus. Era um orgulho ver os vossos excelentes trabalhos!

Depois, às coordenadoras da DGE que trabalharam comigo e que tiveram de limar arestas às minhas ideias. Fui uma sortuda por ter a oportunidade de aprender convosco!

Em conjunto com a Professora Marta de Almeida, foi responsável pela Oficina de Escrita para o 5.º e 6.º ano.

À equipa da Freemantle que, sempre alegre e animada, nos tranquilizava e dava confiança e que embarcava nas nossas aventuras, fazendo das gravações a parte mais divertida do processo, muito obrigada!

Por fim, aos meus amigos e à minha família, por todo o apoio e coragem que me deram. Tenho de agradecer muito especialmente ao meu marido, que durante este tempo não só foi dono de casa e cozinheiro a tempo inteiro (mesmo em teletrabalho!), como foi força, abrigo e consolo e que tanto se sacrificou para que eu orgulhosamente acabasse este projeto (“não se deixa nada a meio”, não é?).

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