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Cidadania e Sociedade

A FESTA DO AVANTE

Regina Sardoeira

Hoje tinha decidido escrever sobre a Festa do Avante, a ter lugar no início de Setembro, na Quinta da Atalaia, em Lisboa. Mas já hesitei várias vezes.

Porquê escrever sobre a realização deste evento, neste ano específico de 2020? E porquê hesitar?
Tenho lido muito acerca da oportunidade de realização da festa. E percebo que a maioria dos críticos (quero dizer, de todos os que crêem que o evento deveria ser cancelado), fazem-no, não por razões altruístas ou de saúde pública, mas porque têm dentro de si uma enorme sanha anti-comunista. E lembro-me, a propósito, do ano, já longínquo, em que passei uma semana em Lisboa, antes da festa, para ajudar a erguê-la. Ficaram, em mim, várias impressões e memórias.
Vi de que modo a organização é metodicamente planeada e como os colaboradores levam as tarefas a cabo com diligência e rigor. Praticamente não há falhas e, se acaso surge um problema, todos se juntam para resolvê-lo. Percebi a necessidade de concluir os trabalhos a tempo, mesmo que isso obrigasse a um esforço voluntário durante toda a noite. Vi uma grande disciplina e uma inter-ajuda notável.
Mesmo antes de as portas serem abertas para o início da festa, eu soube que iria ser um êxito: estando por dentro da organização, como colaboradora da montagem, pude perceber as ideias, a concretização prática das diversas actividades, o entusiasmo de quem assim contribuiu para pôr de pé o gigantesco evento.
Mas dei conta, igualmente, da zanga de muitas pessoas, nas ruas, por verem o sucesso da festa, por perceberem que a ela acorriam centenas, milhares de pessoas das mais diversificadas áreas sociais e como usufruíam das actividades, saindo do recinto com um brilho nos olhos.
Desde então, e até hoje, a festa faz-se com idêntico sucesso, atraindo multidões, sendo muito mais do que uma festa partidária já que todos são bem-vindos, todos podem nela encontrar um concerto, um restaurante, um lugar aprazível para acampar ou passear.
Se recuarmos até Março deste ano, quando uma inesperada pandemia remeteu o mundo ao isolamento e os responsáveis pelos mais diversos sectores sociais foram cancelando festas, concertos, eventos desportivos e religiosos, mergulhando o povo numa melancolia com laivos intensos de terror, parecerá anormal que o Partido Comunista não tenha, velozmente, cancelado também a sua icónica festa. A verdade é que não o fez, deixou, em perspectiva, a possibilidade de realização da festa, fazendo uma análise da evolução das circunstâncias, quanto ao trânsito do fenómeno que mudou, parcialmente, as regras da convivência entre os homens.
Contrariamente a outros responsáveis por eventos sociais que, à partida, os adiaram ou cancelaram , inviabilizando, de facto, a hipótese de voltar atrás, a Festa do Avante permaneceu no horizonte das possibilidades. E, por essa razão, avaliar a evolução dos acontecimentos, de modo a traçar um plano que permitisse, sem consequências nefastas, levar a cabo a festa, manteve-se sempre um cenário aberto.
Logo, esta perspectiva, no tempo, deu aos organizadores da festa a possibilidade de avaliarem o cenário evolutivo do perigo pandémico, no sentido de perceber se, com as adaptações necessárias, a festa seria exequível. Foi, sem dúvida, esta atitude de abertura ao futuro, aliada a uma análise objectiva das circunstâncias, que marcou a diferença em relação a tudo o resto que, precipitadamente talvez, foi cancelado sem remissão.
Por outro lado, a visão criteriosa face ao estado do país, a noção objectiva dos eventos a realizar, no contexto da capacidade do recinto e dos cuidados acrescidos, em virtude da pandemia, puderam ser avaliados com rigor.
Nessa ordem de ideias, é absolutamente viável levar a cabo a Festa do Avante.
Não duvidem da capacidade organizativa do Partido Comunista Português. Aliás, creio firmemente que, por esta altura, todos reconhecem, à saciedade, tratar-se de um grupo partidário de inigualáveis virtudes, no que concerne às disciplina. Logo, se a festa vai realizar-se, ela obedecerá, sem dúvida, a elevados índices de vigilância e controlo. Quem duvida? Esta é, aliás, uma critica comum ao desempenho do Partido Comunista: chamam-lhe ditatorial, monótono, insistente nas regras que o fundam.
E então, haverá disciplina na festa, e rigor, e vigilância.
Nenhuma destas premissas têm estado na raíz de inúmeras manifestações de massa observadas em Portugal, agora, um pouco por todo o lado. Observo muitas pessoas em restaurantes, esplanadas, cafés. Há zonas de férias onde se vêem aglomerações, sem critério algum. Vão-se realizando espectáculos, programas diversos onde, aparentemente, não ocorre qualquer controlo. As pessoas viajam. Vão à praia.
E então por que razão não admite consenso a realização desta festa específica quando, é sabido, os organizadores são conhecidos pela sua eficácia organizacional?
Para todos os efeitos, ninguém é coagido a participar nesta festa, ela pode ser soberanamente ignorada! Quanto à propagação do vírus, sabemos que, alegadamente, se usarmos a máscara, se mantivermos distanciamento social, se lavarmos as mãos escrupulosamente e nos desinfectcarmos com assiduidade…estaremos protegidos… não é?
Escrevi sobre a Festa do Avante, fugindo a todos os chavões veiculados pela corrente opinativa que grassa um pouco por todo o lado. Nem preciso de consultar as normas que a organização da festa estipulará, pois sei que serão inexcediveis em rigor. Venci, pois, a hesitação que me travou um pouco, à partida, ainda que saiba perfeitamente quão deficientes são os leitores : ou não lêem, de todo, ou dispensam a análise isenta.

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