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E QUANDO A ÁGUA TOMA A TERRA

Joana Benzinho

A Guiné-Bissau parece emergir de um pântano quando a chuva galga as margens dos seus 8 grandes rios, e cerca de 1/3 do território fica submerso no período que vai de meio de maio ao final de outubro. É nesta altura que caem as últimas chuvas e o aguaceiro final costuma chegar pelo primeiro de novembro naquela que se chama a água lava cruzes.

A capital, Bissau, banhada pelo rio Geba, não foge à regra da subida das águas que roubam parcelas ao território do país. E, com as águas, chegam naturalmente as espécies animais que nelas habitam.

Um dia lembro-me de estar num cruzamento, em plena via pública da capital, e ver miúdos a pescar numa vala, que esperava ser coberta pelas obras de saneamento que por ali decorriam. Eram peixes graúdos com aparência de barbos, se os meus conhecimentos piscicolas limitados não me traem.
Mas além destes exemplares, pescados à linha, à mão ou à baldada, aparecem outros bem maiores e muito menos afáveis.

São os lagartos. Ou crododilos, como nós lhes chamamos. Ali estão eles, em plena capital, paredes meias com a população num lago mesmo ao lado do mercado, em frente a um hotel e à ONU e com um parque infantil a ladeá-lo.

Estes crocodilos, vindos do Geba, passeiam-se perante uma população atónita e por vezes pouco ciente da sua especial perigosidade. O desafio é grande para as autoridades, saber delimitar as áreas sociais e públicas para proteger a população e proteger em simultâneo esta espécie de réptil de grande porte no seu habitat natural. Este ano, em que a chuva não tem poupado o país, há nota de crocodilos avistados em alguns dos bairros periféricos da capital.

Os ataques não são desconhecidos na Guiné-Bissau. Recordo-me do ataque mortal de 2015 a uma piroga onde seguiam três mulheres da zona de São Domingos e da qual uma delas foi arrancada pelas fortes mandíbulas de um crocodilo. Mas mais houve e outros novos se temem no futuro.

Num dos contos tradicionais da Guiné-Bissau fala-se deles. Dos crocodilos e dos homens com que estes se cruzam. Começa assim:

«Um caçador foi à caça; deparou-se com um crocodilo, que também estava à espera de uma vítima. Quis o caçador matá-lo, porém o crocodilo suplicou-lhe para não lhe tirar a vida, dizendo:
– Vim cá simplesmente à procura de qualquer coisa para matar a fome. Não encontro o caminho do regresso. Leva-me, por favor, até à margem do rio.
Respondeu-lhe o caçador:
– Eu bem queria levar-te, porém receio que me comas
– Juro que não te como.
Propôs-lhe então o caçador:
– A não ser que te amarre a boca.
Atalhou o outro
– Amarra-me a boca.
O caçador amarrou-lhe a boca com uma corda, em seguida, ligou-lhe todo o corpo a um pau, e levou-o às costas até à margem do rio. »

O desafio que se coloca é precisamente o de levar hoje de novo o crocodilo para a margem do rio, tirando-o da lagoa de Nbantonha, em pleno centro de Bissau, e de outras zonas urbanas do país, restaurando a confiança de quem por ali circula no quotidiano. E este é mesmo um gigantesco desafio!

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