Home>Cidadania e Sociedade>O LUGAR DOS LIVROS
Cidadania e Sociedade

O LUGAR DOS LIVROS

Soni Esteves

Os livros são lugares fascinantes, estranhos, poderosos e, não raras vezes, tidos como perigosos.  E tanto, que os homens, nas voltas e reviravoltas da história, os condenam ao extermínio na tentativa de a recontar. Diria que é um vão esforço de perversão da memória, pois para lá da placa de argila destruída, para lá do pergaminho, do papiro, ou do papel, sobram sempre as vozes. E ainda que estas se diluam em mitos, ainda assim, é ali que reside o poder, a força do objeto perdido, esse lugar temido de tão poderoso!

Por vezes, a força do ódio ou do medo é tanta, que já se destruíram bibliotecas inteiras, a memória coletiva de povos…. Conta-se que, em 1252, os mongóis, numa estrondosa semana de pilhagem e destruição, atiraram ao rio Tigre os livros das bibliotecas de Bagdad, e era tamanha a quantidade de obras, que o rio corria preto com a tinta dos livros.

Foram tantas, e em tão diferentes escalas, as vagas de destruição de livros ao longo dos séculos, que talvez nunca possamos conhecer a vastidão do conhecimento inexoravelmente perdido.

E, estejamos atentos… isso não é coisa do passado! Talvez por isso goste de pensar que todos somos guardiões do conhecimento, quer através das memórias que vamos recolhendo dos livros lidos, quer nas pequenas bibliotecas que vamos construindo. Penso nas bibliotecas caseiras como coisas vivas, que tocamos, arrumamos e desarrumamos ao ritmo das leituras que fazemos, que propomos ou partilhamos.  Volta e meia, espreitamos lombadas, conferimos títulos e autores, mudamos os livros de lugar, pegamos um ou outro, ao sabor do nosso querer.

A minha biblioteca não é montra, ou cofre… os livros ocupam estantes, mesas, por vezes, os braços do sofá, como se a biblioteca fosse a casa inteira, e os livros bens de primeira necessidade.            E, no entanto, quando vejo os livros expostos nos supermercados, não posso deixar de sentir, por ali, o que sinto pela comida nas estações de serviço dos postos de gasolina de autoestrada. É preconceito, eu sei, mas guardo o gosto antigo das livrarias com cheiro a madeira e a papel e com gente que fala connosco dos livros com a cumplicidade com que se fala de amigos comuns.

Pode parecer paradoxo, mas com as feiras do livro é diferente. Há qualquer coisa de romântico numa feira, uma ancestralidade, uma ideia de povo que se abastece sem excessos, de contacto e troca. As feiras de livro são lugares de encontro, uma espécie de romagem, de culto pagão em torno do livro.

Este ano, esses encontros foram adiados e diferentes, ainda assim aconteceram. A 29.ª Feira do Livro de Braga realizou-se em edição digital! Sem sair de casa, deambulei pelos quiosques virtuais no centro de Braga, pelos jardins da livraria Centésima Página e do Palácio dos Biscainhos, ou da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Estive na Zet Galeria, em casas de escritores, ilustradores, pintores, contadores de histórias, atores, e até visitei uma exposição de fotografia.

Foi bom! Esta forma de participação tem as suas vantagens: tanto podemos sair a meio de uma conversa sem temer a vergonha de ver todos a olhar para nós, como podemos ficar cativos de um diálogo fascinante, de repente terminado, antes de sabermos tudo quanto gostaríamos. E tudo sem sair do nosso sofá, enquanto bebemos um copo ou tomamos um café.

Todavia, sinto a nostalgia do lugar e do tempo em que a Feira do Livro de Braga era também uma das grandes festas da cidade. José Manuel Mendes era então o autor da programação cultural, e as pessoas não iam caçar autógrafos, iam ouvir os escritores. A primeira vez  que lá encontrei Saramago foi ainda antes do Nobel, e ouvi-lo alterou a minha forma de o ler. É que ele tinha essa capacidade de falar como escrevia, ou escrever como se falasse, não sei. Só sei que nos seus livros está a sua voz, a mesma cadência, a mesma melancolia, a mesma autenticidade e a mesma simplicidade toda feita de sabedoria.

Vivemos outros tempos, é verdade, e a Feira do Livro Braga 2020 pode ter sido o evento possível. Foi cultural? Com certeza que sim, mas não popular. Faltou o contacto, o toque, o calor, faltou quase tudo o que faz uma feira…

Quanto aos livros, continuo a preferi-los em papel, e há sempre livrarias onde apetece entrar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.