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Cultura, Literatura e Filosofia

QUANDO UM LIVRO SE ESCREVE A SI PRÓPRIO

Regina Sardoeira
Escrevi um romance, há algum tempo, e achei que o sítio dos acontecimentos era Portugal, e, por consequência, as personagens tinham nomes portugueses. Quanto ao carácter delas, não saberia, à partida, definir-lhe a proveniência; mas acreditei que se tratava de gente de Portugal. Porém, a certa altura, percebi que o lugar onde residia a protagonista/narradora da história não era nenhuma cidade portuguesa, junto ao mar, que a varanda larga da sua sala de estar não abria para qualquer praia portuguesa que, enfim, tinha viajado com a Beatriz para Sorrento, na Itália!
Fascinada com esta revelação, traduzi, de imediato, o nome dessa senhora; e surgiu a Beatrice. A seguir, realizei o mesmo trabalho e alterei todos os nomes dos restantes elementos da história, a saber, os quatro filhos da Beatrice, o seu  falecido marido e a mulher a dias, uma vez que todos eles são apresentados no primeiro capítulo  da obra.
Continuei a minha escrita, tentando desesperadamente captar o ambiente de uma cidade onde nunca estive, observando, por dentro, as águas turquesa da baía de Nápoles, o vulto sombrio do Vesúvio e a Ilha de Capri. A Beatrice deslizava, suavemente, na frescura dos seus recentes oitenta anos, ia descobrindo um mundo novo, em si mesma e na cidade, o perfume dos limoeiros invadia os ares e eu, tímida, avançava pouco no carácter específico da terra, por me ser de todo estranha.
Percebi, vagamente, a influência de Nietzsche a dirigir-me na escolha deste ambiente, não só porque as suas deambulações por certas cidades da Europa, conduziram-no, amiúde, a Sorrento, mas também porque a minha personagem principal, a Beatrice, acedeu, no dia exacto do seu 80° aniversário, a um recuo temporal de 30 anos. Ora o eterno retorno é um dos grandes tópicos da pensamento nietzschiano e a narradora Beatrice, não sendo muito versada em Filosofia, ainda que razoavelmente culta, ao dar-se conta da sua regressão temporal, não ao modo exacto da intuição nietzschiana, mas tocando, de leve, a tese da negação do tempo ou da sua repetição eterna, lembrou-se de Nietzsche e fez certas associações.
Quanto a mim, fui transpondo para a escrita, todas estas aparições. Atormentada por ter sido compelida a tornar-me testemunha de uma narradora e de uma trama, a primeira originária e residente em Itália, mais especificamente, em Sorrento, a segunda vivida em trajectos e locais que me não são familiares, escrevi toda a história e deixei certos vazios quanto à real atmosfera da região. Pensei: Mais tarde, viajo até Sorrento, capto as suas cores, as fragrâncias, os sabores, sinto aquele chão concreto debaixo dos meus pés, observo os residentes e as suas rotinas, os sítios onde relaxam ou trabalham…e então incluo essas informações no livro.
Porém, ainda não fui a Sorrento. E o livro, escrito há anos, carecendo dessas pinceladas de realismo, permanece  num certo clima de inacabanento. A história, em si mesma, as aventuras da Beatrice e dos interlocutores da sua existência, está completa, não lhe falta nada. Mas Sorrento, a cidade onde o acaso ou a predestinação me obrigou a colocá-las estará mesmo lá, nas frases com que a descrevo? E a baía de Nápoles? E o Vesúvio?
Percebo que não, sei que a minha Sorrento é um nome e uma evocação filosófica e poética, apenas.  Reconheço que a Baía de Nápoles, o Vesúvio, a Ilha de Capri são fotografias observadas aqui e ali, como cenários estáticos, o mar não tem ondulação, os barcos estão parados nas marinas, a cidade mumificou, não uma, mas duas vezes!
Marquei uma viagem para Sorrento, por fim. Iria, desse modo e feito o périplo pela cidade, completar o meu livro, dar-lhe a cor local, impregnar as páginas dos odores inebriantes das flores dos limoeiros, acrescentar-lhe a textura ocre das falésias e a mobilidade suave das águas da baía, os crepúsculos incendiados e a magnitude sombria do Vesúvio!
Aconteceu, então, o surto pandémico e a impossibilidade de viajar para Itália ou para qualquer outro lugar, exactamente nos dias da minha primeira marcação e depois. Não fui, ainda, a Sorrento.
Apesar disso, tenho pensado: e se aquela Sorrento do meu romance, no ano de 2006, primeiro, em 1976, depois, habitada por uma Beatrice de 80 anos e logo depois rejuvenescida 30 anos, pudesse ter os contornos que lhe dei, um pouco estáticos mas inteiramente moldáveis às misteriosas maquinações do retorno? E se eu pudesse chamar Sorrento e Capri e Vesúvio a um cenário apenas meu, ou melhor, da Beatrice rejuvenescida e do seu mundo, deixando para o leitor a verificação ortodoxa de uma visita turística? Afinal, o livro é um romance, e mais: não fui eu que criei a sorrentina Beatrice, ela impôs-se a mim, ela viveu em Sorrento numa bela casa voltada para a Baía de Nápoles e é ela que narra a sua própria história! Impôs-me, portanto, uma narrativa em primeira pessoa de cujas linhas é inteiramente responsável: deverei contradizê-la? Se uma habitante de  Sorrento durante oitenta anos  me mostra a sua cidade do  modo que fui compelida a descrever, deverei ir lá e transformar as suas memórias num jogo de artifício?
Não o farei, portanto. O mistério pontificará, no segredo enigmático de uma escrita que a si mesma se foi produzindo, pela voz e nos pensamentos de Beatrice.

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