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Cidadania e Sociedade

O ACASO QUE NOS COMANDA

Regina Sardoeira 
“Portanto, quando virem a abominação desoladora de que o profeta Daniel falou, instalada no lugar santo (quem ler isto preste muita atenção), então aqueles que estiverem na Judeia fujam para as montanhas! Quem estiver no terraço não entre sequer de novo em casa. Quem estiver nos campos não volte para ir buscar roupa.  Ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias!  Orem para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem num sábado.
Porque serão dias de horror, como o mundo jamais viu em toda a sua história, nem nunca mais se tornará a ver coisa igual. Se aqueles dias não fossem encurtados, toda a humanidade se perderia. Mas aqueles dias serão encurtados por amor dos seus escolhidos.”
Mateus 24, A Biblia, Sinais do fim
Este texto da Bíblia repercutiu na minha mente, vezes sem conta, nos primeiros dias da invasão do mundo por um vírus desconhecido. Continuei a observar os seus efeitos, num planeta habitado e colonizado pelos homens, e vi como, de um momento para o outro, o quotidiano normal se foi transformando, por força de um poder invisível, deletério e de contornos obscuros.
As pessoas foram obrigadas a ficar fechadas em casa, a evitar, cuidadosamente, o contacto com os outros e o possível contágio, a limitarem-se ao consumo estritamente necessário, a deixarem os seus trabalhos, a prescindirem dos seus lazeres…de um momento para o outro tudo mudou à face da terra, no universo dos homens.
Parecia estar a cumprir-se o sinal do fim dos tempos anunciado pela Bíblia, nas palavras de Jesus Cristo. Parecia que nunca mais o mundo poderia equilibrar- se, e que este era o princípio da derrocada. Ninguém o havia suspeitado, toda a gente andava numa enorme descontracção a cumprir o seu tempo.
Obedientes, temendo a contaminação e o sossobrar por força de um mal temível, as pessoas deixaram de viver, se por vida entendermos o rodopio incessante e frenético que as empurra continuamente de um lado para o outro. Ficaram, temerosas, à espera da solução miraculosa, do antídoto, do remédio para o mal. Barricaram-se. Construíram um pequeno núcleo dentro das paredes e escassamente saudaram amigos e vizinhos.
Usaram os meios, disponíveis na civilização, para realizar tarefas, estudar, cumprir funções profissionais, conviver, crentes de que, um dia, lá mais para a frente, tudo se resolveria – e retomariam a vida no ponto em que a haviam deixado.
Mas nada tinha, de facto, mudado. Doença ou embuste, o mal lá estava. Fruto da natureza ou engendrada pelos senhores do mundo, a infecção continuava a rodopiar.
Trata-se de uma peste, de uma doença moderna que grassará, por algum tempo, para depois ser exterminada ou, ao menos, controlada, como outras, antes desta? Ficará entre nós,  como marca de um momento da civilização?  Como uma nova forma de selecção, pronta a excluir da vida os mais débeis? Será um poder inteligente, produto do engenho humano, suficientemente eficaz no modo como opera – qual bomba atómica, silenciosamente disseminada?
Ao certo, ninguém sabe responder, e também ao que parece, ninguém está imune.
Posto isto e perante o recrudescimento expectável das infecções (afinal o mundo saiu das suas quatro paredes e, com exíguos meios, abalançou-se a retomar a actividade social) que devemos pensar?
Regressamos à citação de Mateus, na Bíblia.
“Porque serão dias de horror, como o mundo jamais viu em toda a sua história, nem nunca mais se tornará a ver coisa igual. Se aqueles dias não fossem encurtados, toda a humanidade se perderia. Mas aqueles dias serão encurtados por amor dos seus eleitos.”
Haverá eleitos, entre nós? Pessoas que poderão ser salvas? Haverá um pequeno grupo de homens bons  pelos quais será construída uma nova Arca de Noé?
Supomos aqui uma entidade superior e controladora, que pode ser Deus ou uma qualquer élite humana. Mas se tal não existir? Se as metáforas bíblicas não passarem disso mesmo e a élite controladora não tiver, afinal, a mínima possibilidade de controlar seja o que for?
Resta, por fim, o acaso, a força gravitacional e telúrica de um astro sobrecarregado, a potência e os movimentos desconhecidos de um universo que se crê gigantesco e perante o qual somos, efectivamente, ínfimos. E então, de nada servirão a protecção engendrada contra o vírus, o distanciamento social, a clausura, a desinfecção obstinada: o vírus é como o deflagrar de uma tempestade que arrasa um sítio e preserva outro, uma onda de tsunami que levará alguns consigo e deixará os restantes, as bombas atiradas sobre uma cidade que destroem um bairro inteiro, deixando outro incólume, logo ao lado.

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