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Cultura, Literatura e Filosofia

PARA ONDE VÃO AS MEIAS QUE DESAPARECEM NA MÁQUINA DE LAVAR?

Anabela Borges 

Uma rápida pesquisa, googlando, diz-nos que – “Sim, existe a possibilidade de a máquina ter comido a sua meia”. E segue, somando teorias e conjecturas sobre máquinas gulosas que de vez em quando decidem comer meias temperadas com chulé.

Googlando, há isso e há toda uma doutrina sobre a forma como a nossa mente funciona: que cada um de nós perde x meias por ano, o que significa um total de x desaparecimentos de meias (muitas muitas muitas) em todo o mundo, quantidades infinitas, abismais, de meias que somem sem lhes sabermos o rasto. Especialistas debruçam-se sobre o problema do desaparecimento das meias; dizem: que o incómodo que sentimos com a perda de uma meia é causado por uma distorção no nosso entendimento; que há uma relação entre a quantidade de elementos que habitam a mesma casa e o número de meias desaparecidas; que quando a tal meia desaparece, a tendência é procurá-la insistentemente nos lugares mais óbvios, antes de desistirmos dela e aceitar a perda. É toda uma ciência sobre comportamento humano, de busca, amor e perda. Em resumidas contas, é isto.

Tomar pequenas decisões no quotidiano, a todo o instante, não parece ter grande impacto no nosso destino: o que vestir; o que comer; que estrada seguir; devolver ou não aquela chamada…? São pequenas decisões que nos afectam no imediato, mas que não parecem ter o impulso necessário para fazer mudar a nossa vida. Será? A verdade é que, muitas vezes, ficamos a remoer nessas pequenas decisões que constantemente temos de tomar; pensamos, se tivesse feito isto, dito aquilo. Pequenas decisões podem ser apenas trivialidades, coisas fúteis, que, no fervor do momento, parecem circunstâncias relevantes da nossa vida, mas que, na soma dos dias, acabamos por esquecer.

Esquecemos, mas não deixam de ser importantes para o que somos enquanto indivíduos e seres sociais. Porque há isso e há tudo o que nos afecta sem termos o poder de decidir. Também a folha amarelecida cai da árvore no Outono sem a consciência da imensa mudança para qual contribui. Porque a vida será sempre esse somatório de instantes, entre o que depende e o que não depende de nós. E os pequenos passinhos são também importantes para chegarmos às grandes decisões da vida, àquelas que, realmente, contribuem para a mudança.

Seria interessante treinar mais vezes a mente para o descaso, para não nos determos tanto na mímica da decisão momentânea, muitas vezes treinada apenas para causar boa impressão nos outros. E talvez assim os nossos gestos não parecessem sempre tão ensaiados.

Em resumidas contas, é isto. Afinal, também não vamos passar o resto da vida à procura daquela meia que, um dia, numa determinada máquina de lavar roupa, desapareceu. Ou vamos?

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