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VAMOS BRINCAR

Mateus Oliveira

Brincar é uma palavra especial. Uma palavra que, mais do que acção, carrega dimensões particularmente significativas do crescimento físico, intelectual e emocional das crianças… e dos adultos. “Brincar” remete-me, inevitável e imediatamente, para uma dimensão nostálgica que me faz transbordar o coração de memórias.

São muitos – e cada vez mais sustentados por diversas áreas de investigação científica – os estudos que apontam os benefícios que brincar tem no desenvolvimento cognitivo e motor das crianças. Permite-lhes desenvolver competências, capacidade de raciocínio, atenção e criatividade. Permite-lhes vivenciar, através de processos imaginativos (faz de conta), diferentes papéis sociais (pai, mão, polícia, médico, etc.) fundamentais à sua percepção/compreensão/preparação para o mundo dos adultos, o que se traduz num maior entendimento da realidade que as envolve, dos outros e de si mesma. Permite-lhes gerir melhor os medos, as angústias e as frustrações, actuando como ponto de equilíbrio na sua saúde e no desenvolvimento da sua inteligência emocional. E, last but not least,  assume-se como a ferramenta fundamental no que diz respeito à esfera de socialização da criança – fundamentais à imagem que a criança tem/terá de si e dos outros – conferindo-lhe novas capacidades de relacionamento interpessoal, de comunicação, de partilha e de cooperação.

Ainda assim, as crianças têm cada vez menos tempo para brincar. E esse é um facto que deveria merecer uma reflexão séria, pragmática e consequente da sociedade, a começar pelos próprios pais [e também pelos professores/educadores em função do tempo que hoje as crianças passam nos estabelecimento de ensino – e já lá iremos].

Hoje em dia, pressionados pelas estranhas dinâmicas da sociedade actual, os pais têm cada vez menos tempo – e predisposição! – para brincar com os filhos e as próprias crianças – nesta vertiginosa demanda de criar crianças curriculum – têm agendas de actividades que lhes permitem tudo… menos brincar. É o futebol, a música, o inglês, o ballet, o karaté, a natação, etc. Por outro lado, percebemos que a própria escola é cada vez menos um lugar com espaço para a brincadeira. Inclusive enquanto estrutura física. A pandemia que hoje vivemos e que redefiniu a forma como as nossas crianças estão na escola, permitiu-nos perceber que a escola não tem espaço para brincar. Não há, por parte da generalidade dos decisores políticos e dos agentes técnicos, consciência crítica para importância do recreio. Hoje as nossas crianças estão 6 ou 7 h na escola, confinados a uma sala e, frequentemente, sem poder sair no intervalo. Porque, repito, os espaços de recreio da generalidade das infra-estruturas escolares são exíguos e/ou mal pensados. Percebo e respeito as vicissitudes do momento que atravessamos, mas estou – infelizmente – convicto de que as repercussões deste confinamento e o impacto que o mesmo tem nas crianças será mais grave que a situação actual em si. Aos pais o alerta para que se permitam brincar com os filhos… garanto-lhes que, mais do que qualquer outro dos benefícios que referi, o reforço dos laços afectivos é um benefício incalculável.

E, num regresso ao início deste texto, garanto-vos que serão esses momentos que lhes encherão o coração de memórias… mais, tão mais, do que qualquer brinquedo que lhes comprem ou actividade que lhes paguem.

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