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Cidadania e Sociedade

TERCEIRA OU QUARTA IDADE?

José Castro

Portugal é um país envelhecido, onde o Índice de Envelhecimento (o número de pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 pessoas menores que 15 anos) foi de 161,3 em 2019. Por sua vez, o Índice de Longevidade (número de pessoas com 75 ou mais anos por cada 100 pessoas com 65 ou mais anos), para o mesmo ano foi de 48,5. Finalmente referir o índice de Sustentabilidade Potencial (relação entre população ativa e idosa) foi de 2,9. No total a nossa população idosa não pára de crescer e já são 2.282.424 idosos. Curiosamente, o que deve preocupar não é a população idosa aumentar, mas sim o número de nascimentos não acompanhar o mesmo ritmo. Portugal está em 25º lugar com apenas 13.8% de população abaixo dos 15 anos!

Os idosos do nosso país são mais do que números, representam seres humanos a quem devemos a nossa existência. Muitos lutaram pela sua sobrevivência e a dos seus descendentes (nós) em condições políticas, socias, culturais e económicas extremamente desfavoráveis. Qual a gratidão que o estado tem para com eles? Não chega apenas ter a possibilidade, fruto da enorme evolução dos últimos cem anos, de ver aumentada a esperança de vida. É óbvio que cada vez mais podemos chegar a uma idade mais avançada, mas que também garantir uma velhice digna e com qualidade. Estará o nosso país preparado para isso?

A situação de pandemia veio mostrar ainda mais as debilidades existentes no nosso país. Não só não estava preparado, como negligenciou a situação dos lares de idosos. Não estava preparado porque para acolher pacientes com Covid, teve que deixar de acolher pacientes de outras doenças. Em termos “frios” a morte de um paciente é a morte de um ser humano que pouco importa se é Covid ou não Covid. Estar preparado significa garantir tudo o que já estava a ser feito e ainda “dar conta do recado” devido à pandemia! Por sua vez, se um dos pontos frágeis ou de maior risco eram os idosos, e isso já se sabia, pouco foi feito para atenuar a contaminação nesses locais. Não adianta constatar que existem alegadamente lares ilegais, pois é a responsabilidade, atenção e carinho com que são tratados os idosos que é relevante. Provavelmente esta não será a melhor altura para tratar desses assuntos! Seria falta de tempo no passado? Assim, se de algo positivo teve esta pandemia foi que não adianta esconder o frágil sistema de saúde que temos, assim como a deficiente rede de lares estatais e de qualidade que possam receber dignamente os idosos, mesmo aqueles que já sofrem de algumas patologias quer físicas ou mentais. O estado tem ainda que garantir um fim de vida digno a todos eles incrementando camas nos cuidados continuados integrados e paliativos.
Curiosamente, a pandemia veio demonstrar que afinal o dinheiro “apareceu” para colmatar muitas situações. Se esse dinheiro já tivesse sido investido de forma progressiva em reforçar o nosso sistema de saúde, formar profissionais necessários nas diversas valências, aumentar o número de lares de idosos apetrechados e com profissionais suficientes, provavelmente hoje estaríamos muito melhor. Mas, se tal não foi feito, que acontecerá aos 45 mil milhões euros que Portugal terá acesso até 2029? Será que o previsto investir, segundo o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), nos Cuidados de Saúde Primários com mais respostas – 463 milhões; Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e Rede Nacional de Cuidados Paliativos – 205 milhões, Conclusão da Reforma da Saúde Mental (incluído na rede hospitalar) 85 milhões , Nova Geração de Equipamentos e Respostas Sociais para o Envelhecimento e a Infância 420 milhões, será suficiente? Ou pior ainda, irá mesmo ser alocado para estas necessidades? Ou irão aparecer as tão comuns “derrapagens” e inúmeros custos em “estudos” que pouco sobrará para o que interessa?

Referir finalmente, neste Dia Mundial da terceira Idade que, dada a esperança média de vida, já se fala na “quarta idade.” Assim , a quarta idade é reservada para os idosos que alcançam e ultrapassam os 80 anos de idade. No nosso país já se contam 675.863 idosos. Destes queria parabenizar os 4243 idosos que já passaram a barreira dos 100 anos. A todos desejo que continuem a saber envelhecer e a valorizar cada momento de vida.

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