Cultura, Literatura e Filosofia

JANELAS PARA O MUNDO

Soni Esteves

Há algum tempo, li uma entrevista de André Carrilho, na revista Visão, e fiquei curiosa acerca do livro que ele recentemente publicara, A menina com os olhos ocupados. O propósito, segundo ele, fora uma conversa com a filha, em forma de livro, sobre o uso excessivo do telemóvel. Lembro que, na altura, a entrevista me trouxe à memória, não sei bem porquê, a Alegoria da Caverna, de Platão.

Mantive-me, entretanto, ocupada com outras leituras mas, tempos depois, entrei numa livraria e trouxe A menina com os olhos ocupados para casa. O livro é muito bonito! Quanto à qualidade dos desenhos, tendo em conta que André Carrilho já foi galardoado com múltiplos prémios nacionais e internacionais, entre os quais o Grande Prémio no World Press Cartoon, só podiam ser bons. A mim, que não sou especialista, agradou, desde logo, o facto de ele ter usado a técnica da aguarela e de os desenhos ocuparem a totalidade da página. Depois, gostei da força expressiva das personagens, humanas ou bichos; da sugestão precisa do movimento; do colorido alegre, apelativo e quente, mesmo quando opta por tons escuros.

A história, narrada em rimas, é simples, divertida, e serve o propósito sem cair em moralismos escusados. E depois de a ter lido, uma vez mais o inevitável cruzamento de leituras e vivências… A menina com os olhos ocupados, prisioneira de um ecrã, vive a mesma ilusão dos prisioneiros descritos por Platão. E, se a eles lhes era permitido ver apenas sombras numa parede, de modo a tomarem os sons ouvidos e as imagens projetadas como realidade, também ela ignora o mundo que a rodeia e vive igual solidão.

A leitura trouxe-me também a imagem daquilo que costumava observar nos corredores da escola onde trabalho, alunos sentados no chão, encostados às paredes, com os olhos ocupados. Subjugados pelos ecrãs dos telemóveis, num jogo feito de companheiros virtuais, tomavam por estranhos aqueles que, ao seu lado, se entretinham no mesmo alheamento. E vendo-os tão próximos, mas tão sozinhos, lembro-me se sentir algo parecido com tristeza.

Hoje, porém, já ninguém se senta nos corredores da minha escola, e há cada vez menos meninos com os olhos ocupados. Tomados por uma urgência aprendida num tempo, ainda tão presente, em que o espaço virtual era o lugar possível de encontro com o mundo e com o outro, parecem redescobrir a alegria cúmplice da presença. Então, juntos, esquecidos das distâncias que o tempo dita, são como as casas num bairro que a máscara torna iguais, mas os olhos, janelas abertas para o mundo, enchem-se de brilho e cor para deixar aflorar os sorrisos que máscara alguma consegue esconder.

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