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Cultura, Literatura e Filosofia

O QUE PENSAM OS SOBREIROS?

Anabela Borges

Passam os dias. E o Outono é uma bruma esbranquiçada, requebrada de dourados. Lentamente as folhas caem e preenchem o chão de tonalidades – amarelos-castanhos-laranjas-vermelhos. E desse chão atapetado de sonhos orgânicos, a terra respira e trabalha, célula a célula, a (de)composição, formando o húmus: composto que há-de trazer de novo a renovação – Primavera.

Detenho-me junto a um sobreiro. Passava por ali enquanto passeava os anseios de dias cansados. Distraía a mente com os assombros das paisagens. Procurava, por breves instantes, o enfado de nada ter para fazer. Pura ilusão. Os dias só traziam angústia e cansaço. Os dias só traziam rotina. Não traziam o ar necessário à calma, à respiração-aspiração abrangente, enchendo os pulmões e clareando a mente. Os dias eram sucessões de horas enganadoras, sucessões de castigos, papelocracias, ocupações inúteis entendidas falsamente como necessárias. Oh, burocratas! Já estou como tu, Drummond: “Escravo de Papelópolis / oh burocratas, que ódio vos tenho”…
E a morte em volta. A Pandemia. A morte é esse instante impossível de processar, provocada por tais sinais de exaustão e cansaço.

E a árvore estava ali imparável, alta e forte, com uma copa abrangente nada egoísta, de braços ao alto e folhagem miúda verde-escura, muito abrangente, o tronco um pouco retorcido, a casca rugosa descascando em camadas. Tantos anos de vida ali passados. ali persistente. Ali firme.

Apesar de tudo, os poucos instantes em que conversei com o sobreiro distraíram-me. Por brevíssimos instantes esqueci a dor em volta, o mundo empapado numa esponja de vícios e sangues. Esqueci tudo: a vida suspensa nos cordéis indecifráveis de um vírus. E nesses instantes fui – sou – muito feliz.

Quantas rotinas, angústias e cansaços passaram por ti, amado sobreiro?

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