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Cidadania e Sociedade

QUE QUALIDADE NAS ORGANIZAÇÕES?

José Castro

No dia Mundial da Qualidade nas Organizações importa refletir se toda a “papelada” que uma unidade industrial tem que cumprir quer em termos de produto final quer em termos organizacionais é uma mais-valia para a sociedade.

Não há dúvida que chegamos a este ponto de desenvolvimento da humanidade graças à evolução dos vários saberes da ciência, cada vez mais complexos e subdivididos, a uma investigação cada vez mais meticulosa e dispendiosa que permite desenvolver novas tecnologias, que num futuro próximo chegarão ao cidadão comum. Quando há 125 anos o primeiro automóvel (Panhard-Levassor) circulou em Portugal a uma fantástica média de 15 km/h, provocou para uns fascínio e para outros pânico! Quer se fale de automóveis, aviões, televisores ou simplesmente de telemóveis, por trás está uma (ou inúmeras) unidade(s) de produção, milhares de trabalhadores, procedimentos normalizados ( cada vez mais robotizados) e especificações técnicas extremamente rigorosas! O objetivo é pois que os produtos cumpram as funções para que foram concebidos, sem avariar, sem explodir, garantindo o conforto e a segurança dos utilizadores. Infelizmente, muitas vezes essa qualidade só é conseguida após inúmeros acidentes (aquecedores a óleo que explodem, a pneus novos que rebentam, a aviões que caem por procedimentos incorretos, peças defeituosas, etc) que são estudados minuciosamente até se descobrir como determinada peça “avariou” ou simplesmente foi montada incorretamente. Nesse sentido, ensaios e medições resultam em normas e especificações para determinada “peça” ou “produto” a aplicar a nível mundial. Por curiosidade, no IPQ (Instituto Português de Qualidade) estão disponíveis cerca de 75000 normas portuguesas para os mais variados tipos de produtos. Assim, enquanto consumidores, quando adquirimos qualquer produto exigimos que ele seja de fácil usabilidade, funcional, ergonómico, seguro, ecológico, esteticamente atraente (sempre as emoções!), com um longo prazo de validade e, claro, associado a um preço acessível!

Uma organização não se compõe apenas de linhas de produção, máquinas e equipamentos sofisticados, laboratórios de qualidade, etc. Esta é a parte “fria” da empresa! O que dá vida às organizações serão sempre as pessoas, a componente humana. E a qualidade aplicada aos colaboradores da organização? Onde é que ela anda? Claro que também temos muita “papelada” para o efeito, como por exemplo Sistemas Integrados de Gestão que incluem Qualidade, Ambiente, Segurança, Responsabilidade Social, etc. Destas normas apenas vou “refletir” na componente relativa ao bem-estar do trabalhador! Será que efetivamente se cumprem os requisitos visados? Ou apenas fica no papel? Curiosamente, as próprias auditorias internas e externas, são fatores de enorme pressão e distress nos trabalhadores, em especial àqueles que são responsáveis pela implementação dessa norma. Serão efetivamente avaliados os riscos psicossociais? Qual a garantia da conformidade das respostas a um questionário aplicado com a realidade vivida? A cultura (real) da empresa espelha o que está teoricamente implícito na missão, visão e principalmente nos valores da mesma? Será que além de uma remuneração justa, equitativa e ética o salário emocional “mínimo” está garantido? Será que os trabalhadores e colaboradores das organizações certificadas se sentem efetivamente felizes no trabalho? Provavelmente não tanto quanto se esperava. Porque será?

A resposta é simples. Quando falamos na qualidade de peças, produtos, sabemos que as normas e especiações técnicas são seguidas ao rigor, pois uma falha técnica pode levar a enormes prejuízos diretos e indiretos, desde indemnizações a uma imagem negativa da Organização no mercado, com a resultante perda de clientes.

E quando falamos das pessoas, dos colaboradores? As normas podem ser violadas, pois nada de “grave” ocorre (a curto ou médio prazo) para a organização. Por exemplo, o horário de trabalho real é frequentemente superior ao estipulado legalmente e sem a devida remuneração! E tudo segue de forma “normal”. Mas, jamais, se imagina aumentar em mais um milímetro a dimensão de uma peça de precisão!

Assim, quando a legislação laboral em vigor e as especificações referentes à componente humana de todos os sistemas de qualidade, forem cumpridos com o mesmo rigor que as especificações técnicas para determinada peça ou produto, acredito que a Qualidade tenha chegado às Organizações.

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