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Cultura, Literatura e Filosofia

O VESTUÁRIO, FACTO SOCIAL DA COMUNICAÇÃO

Regina Sardoeira

“O mesmo* se pode dizer do vestuário, facto social da comunicação, que traduz a evolução da cultura, da sensibilidade, das técnicas, da inteligência dos produtores e da tolerância dos consumidores. A moda, entre liberdade e repressão, presta-se a todos os jogos da distinção do poder. O vestuário pode inscrever-se na primeira fila dos agentes da “civilização dos costumes” e da “civilização de corte”, mas sem nunca se desprender do vínculo profundo que se estabelece entre o mundo e a pessoa. É o que ensina Denis Diderot quando conta a aventura do seu roupão: a roupa é a expressão do ser, mudar de roupa induz sempre transformações da pessoa, das coisas que a cercam.”

*O mesmo que se diz do livro, das ciências e de outros produtos humanos.

História das coisas banais, Daniel Roche, Círculo de Leitores, página 9


Comecei há pouco a ler este livro e, de imediato, logo na introdução, deparei-me com o excerto que transcrevo, como epígrafe. O vestuário é comunicação. Através do nosso modo de trajar transmitimos muito daquilo que somos, não somente numa perspectiva estética ou sócio-económica, mas num plano muito mais profundo e íntimo, rondando o substrato ontológico.
Se o vestuário é um factor social, pelo qual nos enunciamos e dizemos quem somos, e, quando saímos de casa, usamos de um certo cuidado na escolha e arranjo das peças, também no nosso espaço privado , a sós, cuidamos de nós, buscando o conforto, a elegância, aliados, como é evidente, ao carácter mais prático que é uso atribuir-se à roupa de trazer em casa.

Pessoalmente, fui educada a mudar de roupa logo que chegava a casa, substituindo o traje de sair por outro, tanto mais que cresci num internato e a norma era usar sobre a roupa, lá dentro, uma bata, nos primeiros anos, cor-de-rosa, e, por fim, preta com uma gola branca. Ainda mantenho esse hábito de substituir a roupa quando venho de fira. E, logo que se aproxima a hora de dormir e relaxo um pouco no sofá, visto o pijama e ponho um roupão.
Quando li, no excerto do livro que cito, a referência a Diderot (1713-1784) e ao seu roupão, fui de imediato recordar o episódio vivido por este filósofo francês do século XVIII.

Ele analisa a sua própria experiência consumista, que só muito mais tarde o antropólogo americano Grant McCracken designou com a expressão “efeito Diderot”, indicando a insatisfação existencial que o consumo pode gera num ensaio intitulado “Lamentações sobre o meu velho robe ou conselho a quem tem mais gosto que fortuna”
Aqui ele conta como o presente de um lindo roupão escarlate levou a resultados inesperados, acabando por induzi-lo a contrair em dívidas. Inicialmente satisfeito com o presente, Diderot veio a arrepender-se da sua nova vestimenta. Comparado com o seu elegante roupão novo, o resto dos seus pertences começou a parecer espalhafatoso e ele ficou insatisfeito por não corresponderem à elegância e ao estilo de seu novo objecto. Substituiu então a sua velha cadeira de palha, por exemplo, por uma poltrona forrada de couro marroquino; a sua velha escrivaninha foi substituída por uma nova e cara escrivaninha; as impressões dos seus livros , antes amadas, foram substituídas por impressões mais caras e assim por diante. “Fui senhor absoluto do meu velho roupão”, escreve Diderot, “mas tornei-me escravo do meu novo… Cuidado com a contaminação da riqueza repentina. O pobre pode descansar sem pensar nas aparências, mas, quanto se é rico vive -se sempre sob pressão “.

A história do filósofo, um enciclopedista e importante vulto do Iluminismo, autor do romance ” A religiosa” ,entre muitas outras obras, mostra como mesmo um intelectual de elevado mérito, é susceptível de ser seduzido por um presente caro, a tal ponto que, doravante, os restantes objectos de uso quotidiano lhe parecem mesquinhos sendo compelido a substituí-los, um após outro, por outros mais elegantes e dispendiosos.

A roupa é então, como muito,os bens de consumo, “a expressão do ser, mudar de roupa induz sempre transformações da pessoa, das coisas que a cercam.”
Um destes dias aceitei, a convite da proprietária de uma loja, apresentar, em directo, frente a uma câmara, algumas peças da sua roupa, com o objectivo de divulgá-las, contribuindo para o aumento das vendas. Surpreendeu-me ser escolhida para semelhante função embora, ao mesmo tempo, tenha compreendido a razão de ser dessa solicitação. Ela acha que o meu estilo de vestir permite uma abordagem diferente dessa área e foi exactamente esse factor que ela quis realçar.

No tempo que corre, marcado por dificuldades de movimentação e de contacto humano, e, contudo, persistindo a necessidade de vender e comprar, são muitas as donas de lojas que usam este método. Elas próprias, ou as suas empregadas, mostram a roupa à frente da câmara, vestem e vão trocando os modelos, realçam pormenores, apelando à compra. Em suas casas, os potenciais clientes assistem, participam, enviando mensagens, questionando acerca do produto em questão, eventualmente fazendo encomendas. Mais tarde, ou no mesmo instante, as mensagens são lidas, respondidas e, através de métodos variados, a compra efectiva-se.

Nunca tinha estado em directo desta maneira, mostrando peças de roupa, uma após outra, exibindo detalhes, variando os ângulos de focagem. Não vou dizer que o vídeo daí resultante, de pouco mais de 15 minutos, tivesse sido integralmente bem sucedido: houve uma ou duas falhas, facilmente remediadas num outro evento do género. O que quero aqui realçar é a circunstância de ter trazido para casa este livro, “História das coisas banais” exactamente no dia seguinte à minha incursão pelo território das apresentações de roupa em directo, e ter deparado com o excerto citado acerca do vestuário e da experiência do filósofo Denis Diderot.

Eu compreendo inteiramente a confissão de Diderot nesse pequeno ensaio, irmano-me com a sua atitude consumista e um pouco obsessiva pois, a partir do momento em que tomou posse de um luxuoso roupão e começou a usá-lo, desprezando o antigo, tudo, à sua volta, lhe pareceu inapropriado e até mesquinho. Precisou então de substituir todas as coisas desde a velha cadeira, à velha escrivaninha, passando pelos quadros nas paredes.
O vestuário e, enfim, tudo o que nos rodeia e vamos adquirindo ao longo da vida, são extensões de nós próprios, revelam o que efectivamente somos; e podem dar-nos, como aconteceu a Diderot a noção de que estamos a enredar-nos no vício consumista, a gastar muito mais do que aquilo que são as nossas posses, a ceder ao endividamento.

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