Home>Cidadania e Sociedade>O NEGACIONISMO CIENTÍFICO
Cidadania e Sociedade

O NEGACIONISMO CIENTÍFICO

Luís Coelho

Para uma maioria “normativa”, negar a ciência é negar a própria realidade. Para uma minoria “desadaptada”, negar, ou questionar, a ciência constitui o genuíno exercício do cepticismo. Porque este deve, sobretudo, duvidar da intrínseca capacidade de conhecer. Na medida em que este “conhecer” inclui um auto-conhecimento que não pode ser efectuado por completo. Isso seria ir ao “exterior” de que se duvida. Assim, o negacionista não nega, somente, a ciência, nega-se a si-mesmo, no exacto sentido em que se procura com avidez.

Ávida procura, esta, que estende a hesitação a um mundo convertido à hipermodernidade concretista, esta assusta e elide uma personalidade que se recusa a aceitar uma “normalidade” cruenta, isenta de magia, e, por isso, de qualquer possibilidade de redenção. É normal, portanto, que o mito curativo – que é, na verdade, uma forma de desmitificar a rede de signos onde se entretece o sintoma psicossocial – e as terapêuticas irredutíveis ao “número” sejam, sempre, mais arrojadas nesse pleito de uma busca que um simples anti-depressivo convida a fazer cessar e transformar num resquício de enzimas.

O negacionista não se limita a pedir um Sentido, ele quer conjurar um mundo de fantasmas, onde deuses e titãs se vêem, subitamente, evocados e tragados a uma modernidade que prometia desligar-se do passado. O negacionista nega o futuro sem o pretérito, renega o movimento não indultado pela memória.

Mas este trajecto não é estranho ao objecto filosófico, que, constantemente, opôs o capricho da razão ao desiderato de um empirismo sensacionalista. A “ciência” nunca pôde escusar a razão, nem pode fazê-lo agora. Mas o verdadeiro “negacionista” não se limita a abjurar uma ciência irrazoada, também duvida de que seja possível viver sem “Espírito”, ou, talvez, sem o seu próprio “espírito”. Há, aqui, um exercício de projecção do inerente ego – diz o materialismo – que se satisfaz, mais completamente, em deplorar muito do que a ciência “materialista” predica. É preciso assegurar uma identidade “espiritual”, e, para esta, não existe uma realidade crua, tão-só um interior que teima num desencontro fátuo. Assim, o negacionismo não é, simplesmente, ignorância, é uma impossibilidade de adaptação, é uma “dúvida sistemática”, que, em grande medida, recupera certo passado pré-científico e dogmático. A atracção pós-moderna pelo Espírito vem dessa inadaptabilidade, dessa insegurança metódica, que, aliás, viceja entre os filósofos.

A insegurança, a dúvida, é, como sabemos, um marco do rigor conceptual. Os nagacionistas são necessários. Tal como é necessário o rigor empírico, o cepticismo “positivo”. Os modelos contrafazem-se e reconstroem-se continuamente, concorrendo para uma coisa maior, que é, bem vendo, mais inclusiva, porque assume, sempre, a “boa fé” dos seus proponentes. Não vejo o negacionismo como prédica charlatã. Apenas como uma atitude diferencial, que excede o mérito da “observação” não participante, para abraçar o testemunho mais imediato. A liberdade é a sua proa, bem como a âncora que resvala pelas areias humedecidas de verdades díspares. Não a limitemos, o pior que pode acontecer é o futuro de muitos ser acometido, mas isso é algo que acontece constantemente. O risco é que cria a utilidade. A ciência também não se exime de riscos, por vezes até arrisca trazer para si-mesma o que pertencia ao arrimo de um paradigma concorrente. E, depois, dirá ter, tal conteúdo, sido sempre pertença da ciência. E com esta arrogância arrisca-se. Arrisca-se a que mais uns deitem a perder o baldio de rigor, em nome de um espectro. Um espectro que paira sobre o mundo e nos manifesta a Vontade maior do fantasma que pretende sublimar-se. Se isto trouxer mortes, que seja pelo “bem maior”, pela “harmonia universal”. Afinal de contas, poderá a ciência “humana” viver sem a complexidade? Pode, até, ser que o espírito seja, sempre, matéria por desvelar, mas isto não mata o fruto da complexidão interior e metafísica. Que ele dirija a ciência não mata, igualmente, o rigor requerido. Daí que tenha de subsistir um duelo epistémico, até que algo melhor surja.

Entretanto, negar a ciência passa por manifestar um desacordo com um modo de ver e de viver. É questão de “marca”, e de “moda”. O “pós-modernismo” acresceu-lhe o campo “moral”. Porque uma ciência tão moralmente isenta não merece ser sacrificada aos interesses da indústria. Claro está que o (pós)marxismo se serve, perfeitamente, deste campo, que, bem vendo, acaba por ser usar a moral como fonte de ciência.

O espírito conspiratório, o clima de suspeição generalizada, tudo isto é fruto de uma desorganização psíquica capaz, por si mesma, de gerar frutos. Entre eles, a própria psicanálise, entrelaçada, talvez injustamente, nos campos da pseudociência. A fragilidade é o alicerce de toda a grande teoria. Curioso que, por vezes, seja esta, também, a condição do movimento “liberal”. Quanta psicanálise, e quanta pseudociência, será necessária para fazer brotar o “espírito” científico-liberal nas mentes que lhe resistem com o complexo de um “Espírito” que brota das cavernas inconscientes e tece o espectro do Colectivo? Não é a ciência que irá exaurir os “espirituais”, estes preferem o calibre do placebo, que é mais paliativo do que curativo. E para que o espectro cresça, nada melhor do que minar a liberdade de pensamento. Pior do que uma ciência pouco atraente é a ciência castradora. Se ela se excede, torna-se dogma. Daqueles que asseguram e prescrevem a verdade, desenhando os futuros fantasmas. Mas destes nunca nos poderíamos, verdadeiramente, ver livres. Porque a verdade é que a verdade não existe. Existe, tão-só, um Ideal que se propaga nas escolas e inflama os corações mais autónomos. E estes são, todavia, os que não se conformam à norma. Mas isto, claro, é o que diz a minha própria inconformidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.