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A LUA E A NOSSA IMPOTÊNCIA DE CONHECER O TODO

Regina Sardoeira

Uma destas noites (para ser exacta, e devo sê-lo, foi na sexta-feira, dia 19, às 22 horas), vi a Lua. À minha frente, um pouco acima do horizonte, justamente onde o sol se põe, observei um pequeníssimo filamento dourado, em forma de c; mas estava deitada, com as duas pontas erguidas e o bojo paralelo ao horizonte. Olhei-a demoradamente, absorvi a posição, para mim insólita, pois nunca a tinha observado com aquele aspecto. Não a fotografei, porque não quis. Escassamente a fotografia reproduziria o sentimento que me invadiu.
Aquela imagem era uma ficção, um produto da minha incapacidade de ver as coisas por inteiro ou de as compreender nas suas alternâncias.
Enquanto me deslocava, de carro, em direcção a ocidente, com a fantástica imagem da Lua, em quarto crescente, mal saída da Lua nova, deitada sobre o horizonte, fiz algumas reflexões.
Toda a gente sabe que a Lua apresenta diversos aspectos, ou “fases” e que eles derivam das posições relativas da Terra, do Sol, da própria Lua, já que tudo se movimenta, e que também o nosso próprio olhar e situação relativos condicionam a visão que temos dela.
A Lua não é, portanto, aquela imagem poética que eu vi, aquele filamento amarelo de luz a dourar suavemente o céu escurecido pela noite. A Lua é um rochedo estéril, sem qualquer beleza, em si mesma, um planeta satélite do nosso que é, por seu turno, um satélite do Sol. Mas o modo como ela se apresenta aos nossos olhos, ora plena, irradiando uma luz branca e fria, ora pequeno disco, quase invisível, ora cindida a meio, ora menos que isso, alimenta – nos a imaginação, faz-nos sentir acompanhados em noites frias e escuras pela irradiação láctea de um astro que cremos pertencer-nos. Vê-la, quase ao alcance de um braço estendido, faz com que nos sintamos imensos e poderosos. E no entanto o planeta das fases fica a milhares e milhares de quilómetros de distância e viajar para lá representa uma missão reservada a muito poucos até hoje e, afinal, pouco mais do que inútil.
Estas são as minhas considerações, é claro, ao rés da importância científica e tecnológica do feito que, há décadas, levou alguns homens a pisarem aquele solo e a sentirem-se muito orgulhosos disso. Sem dúvida que a colonização do nosso satélite passa por algumas mentes, essas que conhecem a devastação do planeta Terra e almejam por uma emigração para um outro mundo qualquer. Por mim, pouco me interessaria viajar para a Lua. E, se digo “pouco” é na justa medida em que gostaria bem de poder observar a Terra, de fora, ver como é, de facto, este nosso planeta, tão envolvido em água que lhe chamam azul! Bem sei que, ver a Terra, de lá, da Lua, não me mostraria a Terra mesmo, tal como ver a Lua, de cá, me revela somerte miragens e fases.
Aquela visão transcendente que a Lua me ofereceu na sexta-feira passada mostrou-me a irremissível relatividade de tudo quanto vemos, de tudo quanto sabemos. Nada podemos afirmar, peremptoriamente, porque existe o outro lado da nossa visão das coisas, oculto pela nossa incapacidade de ver no escuro, de suprir essa escuridão, abarcando o todo. Estamos sempre em desvantagem nas nossas convicções e certezas, nunca temos a total percepção do todo, nem sequer da nossa própria figura logramos ver a totalidade! Só pedaços, fragmentos, réstias, lampejos.
E contudo somos tão arrogantes e, em simultâneo, tão irresponsavelmente insensatos que fazemos desses esboços de perspectivas e visões a afirmação da verdade, absoluta ou relativa, consoante os casos. Ora uma tal verdade não será nunca captável pela nossa própria natureza, feita para ter relances mutáveis e fugidios, ora iluminados e plenos, ora obscuros e recortados. Como a Lua, que aparece inteira no céu mas de que apenas percebemos uma imagem incompleta.

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