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Cultura, Literatura e Filosofia

EDUARDO LOURENÇO, FILÓSOFO PORTUGUÊS

Regina Sardoeira

“Influenciado pela leitura de Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre ou pelo conhecimento das obras de Dostoievski, Franz Kafka ou Albert Camus, Eduardo Lourenço foi associado de um certo modo ao existencialismo, sobretudo por volta dos anos cinquenta, altura em que colaborou na Árvore e se tornou amigo de Vergílio Ferreira. Nunca se deixou enfeudar, todavia, a qualquer escola de pensamento, já que, embora favorável a ideias de esquerda, nunca abandonou uma atitude crítica perante essa esquerda.

Com uma clara autoridade moral, foi-lhe atribuído o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (concedido em 1988 por ocasião da sua obra Nós e a Europa ou as Duas Razões) no ano em que foi colocado em Roma como adido cultural português.

Crítico e ensaísta literário, virado predominantemente para a poesia, assinou ensaios polémicos como Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português n’ O Comércio do Porto (1960) ou um particular estudo sobre o neorrealismo intitulado Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968). Aproximou-se da modernidade na obra de Fernando Pessoa, a propósito da qual deu à estampa o volume Pessoa Revisitado (1973) ou Fernando Rei da Nossa Baviera (1986). Indiferente à sucessão de correntes teóricas, e fugindo tanto ao historicismo como a pretensas análises objectivas, a perspectiva de Lourenço influenciou já outros autores, como, por exemplo, Eduardo Prado Coelho, e encontra-se enunciada num livro central, Tempo e Poesia” (1974). (…) Wikipédia

Todas estas informações podem ser obtidas numa rápida consulta a Wikipédia. Não creio, porém, fazer justiça ao filósofo Eduardo Lourenço, cuja obra nunca ou escassamente foi alvo de estudo na minha passagem pelo Faculdade de Letras do Porto, onde obtive a licenciatura em Filosofia, se me limitar a estes e a outros dados de carácter biográfico ou bibliográfico.

Na Universidade do Porto havia uma tese que sempre considerei estranhissina, defensora da inexistência de uma Filosofia Portuguesa, pelo que a área de estudo centrada nos filósofos portugueses era apelidada de História da Filosofia em Portugal. Esta designação prendia-se com o facto de, pese embora a evidência de haver estudiosos, investigadores, ensaístas, escritores de profundo cariz filosófico em Portugal, o seu pensamento não podia ser considerado de raíz especificamente nacional. Logo os filósofos portugueses – nascidos em Portugal, entenda-se – não expressariam as linhas de pensamento de cunho especificamente português, ou porque um tal cunho nunca existiu, sequer, ou porque esses filósofos não foram capazes de expressá-lo, ou porque sempre foram subsidiários das teorias filosóficas de outros países.

Na altura devo ter seguido as linhas orientadoras do programa, pois a perspectiva crítica nunca foi estimulada pelos mestres, o que sempre me revoltou. Mas nunca concordei com a posição universitária por considerar que, de um modo ou de outro, o pensamento filosófico, produzido por uma personalidade oriunda de um país específico deve, necessariamente, ser a expressão conceptual, ideológica, linguística, histórica de tudo o que define uma cultura.
Desse modo, Eduardo Lourenço é um filósofo português, mesmo tendo vivido uma parte considerável da sua vida em França e colhido influências de eminentes pensadores de outros países.

“A nossa identidade é-nos dada pela língua. O resto é identidade humana, normal, genérica. A identidade no sentido em que a tomamos, como qualquer coisa de particular, uma voz que é só nossa, que escutamos, é dada pela língua. Em segunda instância pela escrita, pela memória escrita. Uma cultura é uma memória, qualquer coisa que se está sempre a reciclar dentro do mesmo.”
DNa, Diário de Notícias, 2003

Portanto, o factor linguístico, a identidade que nos é comum, enquanto portugueses e que nos faz falantes e depois escreventes, é o factor decisivo na perscrutação da nossa filiação num ou noutro país. Sendo originariamente português, Eduardo Lourenço, pensa, fala , escreve, exprime-se, pois, como tal. Pouco importa que seja fluente noutras línguas, pouco importa que tenha vivido e leccionado e recebido prémios noutros universos linguísticos e logo de pensamento: é o que existe de intrinsecamente português na sua matriz original que desse modo se exprime.

“Somos poetas por definição porque somos falantes, criadores de ficção. Falar é ficcionar, essa é a nossa primeira relação com o mundo.”

Eduardo Lourenço, Expresso, 2017

Esta citação do filósofo, brevíssima, presta-se, contudo, a uma profunda dilucidação.
“Somos poetas, por definição”, diz o pensador e esta afirmação pode afigurar-se estranha a um leitor incauto Porém, se reflectirmos um pouco, perceberemos logo que a nossa linguagem humana é música, harmonia, sendo essa mesma a essência da poesia. Falar é construir um tecido estrutural de sons e cambiantes e, quanto melhor falarmos, tanto mais exprimiremos a poesia fundante que reside subjacente à fala. Do mesmo modo, pela fala, com a língua, construímos uma ficção, auto-ficcionamo-nis e ficcionamos o mundo que, desse modo, queremos exprimir.
Aliás, Eduardo Lourenço, ao referir-se à existência, a sua, em primeiro lugar, a de todos, depois, afirma que ela não é mais do que uma auto-ficção pela qual nos reinventamos quotidianamente e nos vai impelindo para diante, ou melhor, com os pés assentes no presente que é o único tempo que nos é dado.
O mesmo se passa com Portugal, este país que é o nosso chão e nos garante unicidade e autonomia.

“Os portugueses ainda vivem com um excesso de passado. Sobretudo com essa espécie de fixação histórica, que pode ser de tipo erótico ou outra, temos a nossa fixação sobre o nosso período áureo. Estamos eternamente no século XVI, estamos eternamente navegando para a Índia. Porque foi aquilo que fizemos enquanto povo de mais extraordinário, aí deixámos a nossa marca na história do mundo.”

“Entre Nós”, Universidade Aberta, 2002

“A nossa História não é trágica, é muito protegida. Mesmo quando a Espanha esteve aqui, Portugal nunca perdeu a sua identidade real. Os espanhóis até pediam autorização para ir para a parte portuguesa! Portugal era a nação mais coerente do ponto de vista da Europa e tem uma espécie de identidade forjada a partir da sua própria fraqueza. Isso é que é verdadeiramente extraordinário – tivemos esta capacidade de fazer da fraqueza força.”
Público, 2003

Portanto, ou por outras razões (que este termo “portanto” parece circunscrever o que foi dito antes) Eduardo Lourenço é um filósofo português, tão genuíno quanto pode ser um homem aqui nascido, aqui criado, aqui, originariamente, falante da língua portuguesa, nosso vínculo comum.

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