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O MENOR DOS MALES DA TELEVISÃO PORTUGUESA

David Amaral

O Festival da Canção foi o concurso musical por excelência, assumindo, no passado, grande protagonismo na vida musical, social e televisiva do país que, após um declínio lento, ressuscitou em 2017 com a vitória de Salvador Sobral. A televisão foi, ao longo da sua história, fértil em programas musicais, promovendo autores e talentos portugueses.

A era dos concursos musicais em televisão, dependente de júri e votos dos espetadores, foi marcada por “Chuva de Estrelas” em 1993 que, na primeira das suas sete edições, teve a inigualável Sara Tavares como vencedora.

Desde aí, não mais pararam os programas com diversos formatos e edições, repetindo exaustivamente temas musicais e a ilusão de um lugar de destaque na música portuguesa. A repetição desta fórmula também se deve à procura pelos candidatos e à concorrência televisiva em busca do maior share de audiências.

Estes concursos nunca geraram consenso, ora admirados por uns que acompanham os seus concorrentes preferidos, ora despertando a animosidade de outros, muitas vezes músicos de diversas áreas que se manifestaram publicamente contra a proliferação deste género de programa.

O sonho é alcançar uma carreira musical bem-sucedida, qualquer que seja a idade e experiência musical. É interessante verificar que participam concorrentes cada vez mais jovens, além dos ‘repetentes’ ou já com um percurso musical. Também há os que procuram 5 minutos de fama e os que participam porque sim, por divertimento. Afinal, é um concurso.

É um facto que o mercado musical e cultural português não tem capacidade para absorver tantos cantores. Das centenas de concorrentes, dezenas de finalistas e vencedores ao longo dos anos, quantos têm um lugar de destaque ou como profissão a música? Não basta cantar bem e interpretar temas de outros. O ouvinte e consumidor de música, não procura apenas a voz agradável ou virtuosa, mas também quem conte as suas histórias, mesmo com vozes menos perfeitas, privilegiando a originalidade e a criatividade dos cantautores.

Há, contudo, nestes programas, vozes, interpretações, arranjos e versões que continuam a surpreender. A escolha musical é crucial e tantas vezes, a simplicidade prevalece. Contudo, alguns temas não estão ao alcance de todos. Em “I’d rather go blind”, precisamos de acreditar que a cantora preferiria mesmo cegar em vez de ver o seu amor com outra mulher, tal como Etta James me fez acreditar. Já muitos tentaram, incluindo Rod Stewart. Contudo, nem ele o conseguiu…

É de evitar transformar os concursos musicais em reality shows, com suspense e dramatismo, habilmente geridos para elevar as audiências – o real interesse das televisões. Não vendendo a expectativa de uma carreira de sucesso ou de uma vitória, poderá ser uma experiência, um momento de fruição para os participantes, que devem continuar a aprender, a cantar, a tocar, a compor e a escrever a sua história. É apenas um concurso, logo, não ganha sempre o melhor e o futuro não depende de um programa de televisão.

Procurando garantir a diversidade musical, com destaque para a música portuguesa, a qualidade dos intérpretes, dos arranjos e dos músicos envolvidos, júri incluído, estes programas são uma opção de entretenimento e o menor dos males do atual panorama televisivo português.

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