Cultura, Literatura e Filosofia

VIAGENS LITERÁRIAS

Regina Sardoeira

Se eu quiser fazer um balanço deste ano de 2020 que, na ordem do calendário, terminará em poucos dias, diria que o pior que experimentei foi a impossibilidade de sair e dar continuidade às minhas viagens literárias.
Comecei o meu périplo mensal de dois dias, em Junho de 2019. Decidi escolher uma cidade ou vila ou região de Portugal, ao acaso, reservar alojamento para uma noite e partir.

No início representou uma espécie de teste. Eu iria sozinha, no meu velho Citröen AX, sem o mínimo roteiro, entregue à estrada e ao acaso.

No fim dessa primeira viagem (literária, convém não esquecer) fiz uma análise.

Em primeiro lugar, e logo que cheguei a casa, experimentei uma grande sensação de relaxamento e alegria…e nenhum cansaço. Tinha ido a Óbidos, uma distância de cerca de 300 quilómetros, fui num dia e vim no seguinte, passeei-me pelas ruas antigas da vila das Rainhas, preenchi o tempo comigo própria e soube que iria continuar.
Mais tarde, soube também que encontrara o pretexto literário, que essa pequena viagem ganhara indícios de aventura capazes de desencadear o processo da escrita. Escrevi, pois, sobre essa minha surtida, um texto que arquivei, sentindo que me eram necessárias outras experiências, outros locais capazes de criarem o elo narrativo.
No mês seguinte fiz outra viagem e depois outra e outra e outra…ao todo, foram oito!

A última, a Montemor o Novo, uma viagem longa mas com muitos tópicos de encanto, foi em Janeiro de 2020.
A seguir, tinha decidido prosseguir, marquei a viagem e o alojamento…fui forçada, pelas circunstâncias, a cancelá-la.
Até hoje, nove meses decorridos, e apesar da tentação, não regressei aos meus oásis de dois dias, primeiro no habitáculo do meu velho carro, a escutar a Antena 2 e a contemplar o mundo à volta e os meus pensamentos, depois num alojamento que, fruto do acaso ou de uma intuição certeira, me satisfez sempre e, por fim, de novo no carro, a regressar e a construir, na memória, os detalhes da viagem.

Há nove meses que não viajo literariamente. E vejo bem quanto está privação me custa.

Estou encerrada numa cápsula espácio/temporal e a imaginação, essa, que durante oito meses, em oito viagens diferentes, se iluminou, dando-me múltiplos pretextos criativos, parece um pouco estagnada. Todos os dias acordo e percebo que o dia vai ter contornos idênticos ao anterior e que, principalmente, não vou abrir o mapa de Portugal (ou de Espanha, pois tinha decidido aventurar-me mais para além), escolher um destino no impulso de momento, marcar um alojamento e depois ir!

A vontade de o fazer é tanta que qualquer dia não resistirei. As estradas estão aí, como dantes, o Citröen AX continua, fielmente, a corresponder às minhas expectativas e decerto haverá alojamentos nas terras que eleger…
Portanto, se eu quiser fazer o balanço de 2020 terei que realçar o prejuízo criado por esta impossibilidade que, ao contrariar o meu impulso de aventura, ao condicionar a liberdade de sair e entrar sem precisar de justificações ou pretextos me retirou o fulgor daqueles dois dias, tão curtos, se nos ativermos ao tempo, mas tão longos pelo modo como conseguiam dilatar-se e dar sentido ao meu mundo interior.

Viagens Literárias. Nascerá um livro com este (ou outro) nome destas incursões (incompletas) por estradas, ruas, caminhos? Poderá nascer a narrativa perfeita das viagens e do modo como me fui encontrando, eu e outra ainda, nos périplos solitários, mas absolutamente preenchidos que me lançaram para vários desconhecidos?
Por mais que o deseje, ainda não sou capaz de responder a tais questões.

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