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Cultura, Literatura e Filosofia

A SIMULTANEIDADE NECESSÁRIA DO TEMPO

Regina Sardoeira

” O tempo não é uma realidade, mas um conceito ou uma medida.” Antifonte, orador e logógrafo grego, século V a. C.

Hoje vou reflectir (de novo) sobre o tempo.

Pensamos todos que há um presente, um passado e um futuro. Pensamos ainda que, com linearidade, vimos do passado, desaguamos no presente e rumamos, de imediato, para o futuro. Acreditamos que o tempo se organiza em dias, semanas, meses, anos, séculos (…), e vamos construindo, individual e colectivamente, memórias e planos.
A história narra o passado, dizem, esse tempo que ja foi, com factos, acontecimentos, marcas, testemunhos de épocas que deixaram de ser. Nós olhamos o decorrer da nossa existência como se tivéssemos um ontem, no qual fomos crianças e já passou, e um amanhã para o qual tendemos e que desconhecemos.

Porém, esta visão compartimentada do tempo, esta disposição em linha recta, absolutamente estanque (porque não vamos ao passado, nem acedemos ao futuro), pode ser um ludibrio da nossa capacidade de perceber ou uma mera ilusão.

Tenho assistido a uma série televisiva, designada Outlander, na qual uma mulher, inadvertidamente, recua dois séculos, saindo do século XX, concretamente, de 1945, e vendo-se, no mesmo local, mas em 1743!

A série é integrada na categoria de ficção e fantasia, designações que se enquadram na minha concepção habitual do tempo; e é nessa óptica que venho acompanhando a saga dessa mulher, caída no século XVIII, com todo o acervo da mundividência do século XX.

Porém, ontem à noite, ao assistir à série, percebendo que a mulher, situada no século XVIII (mas vinda, pela segunda vez, do século XX, onde deixou uma filha, gerada no século XVIII) se encontra, em 1748, praticamente no mesmo sítio onde viveu vinte anos da sua vida, entre 1948 e 1968. Ela medita acerca desse facto e ainda acerca de tudo o que acontecerá, no mundo concreto em que habita, durante os próximos duzentos anos…cujo desenrolar a História lhe ensinou. Também eu reflecti.

Rememorei a minha primeira viagem de avião, entre Porto e Lisboa, momento em que assisti, do alto, a um fenómeno inédito para mim: as cidades a juntarem-se muitos metros abaixo! E, de repente, a cidade de Aveiro – que não se vislumbra minimamente quando se está no Porto e sabemos que a distância a percorrer entre as cidades é de, aproximadamente, 60 quilómetros – da janela do avião, apareceu-me perfeitamente unida ao Porto!

E então fiz a analogia: não serão o tempo, e as distâncias temporais que traçamos, uma ilusão idêntica?

A cidade de Amarante está aqui, hoje, 5 de Janeiro de 2021 e assume o aspecto que, actualmente, nos aparece. Mas, por trás dessa aparência contemporânea, não estará, tão viva quanto esta, a Amarante de 1821, na qual viajamos hoje, ignorantes dessa imagem que achamos que ela teve – e já não tem?

Os dois tempos – aquele a que chamamos passado (1821) e esse outro a que chamamos presente (2021) – parecem distintos. Assemelha -se-nos que o “agora” destruiu “aquilo que foi”, eliminando toda a vida, toda a respiração desse tempo, transmutado numa outra era.

Mas, de facto, como é isso possível? De que forma morre um tempo, para dar origem a outro? É absurdo supormos a morte do tempo apenas porque o dividimos em eras, em séculos, em anos, e crermos, afincadamente, que nada vai restar, um dia, deste tempo que vivemos hoje.

Fomos nós, humanos, possuidores de uma racionalidade obtusa e térrea, que nos obstinámos em separar, dividir, desunir. O tempo é uno, circular, o fim (que o não é) encontra constantemente o princípio (que, de facto, também não o é) numa perpétua alternância em que tudo permanece idêntico, mesmo estando em perene devir.

Outlander, a série, não é um documentário científico, antes um conjunto de episódios baseados numa obra de Diana Gabaldon, escritora norte-americana. Mas a viagem no tempo, efectuada por Claire, a protagonista, e sabiamente realizada, no filme, sem efeitos especiais e logo com toda a naturalidade, sugere ou antecipa, não somente o desejo de todos (quem não gostaria de visitar outras épocas?), mas também a hipótese da sobreposição necessária daquilo a que chamamos eras que, por defeito da nossa mente, temos vindo a separar, rigidamente.

Por essa razão, ainda, avalio a passagem, de um ano para o outro, como uma continuidade e nunca como uma ruptura. Muda somente o calendário e, mesmo assim, é somente um algarismo que indica a alteração.

Entendo a passagem do ano, não como uma transformação significativa do ciclo da existência, mas como ocasião da catarse necessária à humanidade. Ela, a catarse, ou purificação, pode, perfeitamente, acontecer a qualquer momento. Porém, esta marca no calendário permite uma espécie de apoteose colectiva, no desejo partilhado de bons augúrios. E todos sabem que o primeiro segundo após a meia noite encaixa solidamente no segundo anterior – e o tempo, o do calendário, segue o seu rumo normal.

O tempo é, pois, na perspectiva humana, uma marca no calendário e no relógio, o anúncio de metas, “um conceito e uma medida” como sabia Antifonte na Grécia antiga. Nada mais do que isso.

Não existe passado, nem presente, nem futuro, mas sim uma sobreposição e simultaneidade que somos incapazes de abarcar, pelo que criámos, nos nossos primórdios, separações rígidas de épocas, de anos, de dias e horas. Inventámos a cronologia e submetemos-lhe o curso interpolado das nossas vidas. E, por essa razão, vogamos nesta ilusão racional, indiferentes e conformados, esquecidos de que o tempo presente é a reprodução exacta de muitos passados.

Vivemos uma pandemia: um vírus atravessou-se no ciclo habitual do nosso quotidiano. E, depois do impacto inicial e da surpresa, da avalanche noticiosa e das restrições, escassamente pensámos que todo o tempo conhecido da história humana foi marcado, uma e muitas vezes, por catástrofes de similar importância. Porque havíamos de considerar que somos “especiais’? Que o facto de existirmos neste século XXI, aparentemente tão evoluído, nos livraria de fenómenos globais e deletérios como este? Que somos vítimas de poderes ocultos ( ou nem tanto) que pretendem manipular-nos e escravizar-nos? Que vamos, em breve, matar o vírus e poderemos prosseguir, sossegados, a nossa vidazinha?

Os vírus ( artificiais ou naturais, se esta dicotomia for válida) estão aí todos e, quando se activam, alojam-se em qualquer um para resistirem. Não são organismos vivos, mas parasitam o corpo de quem vive, a fim de subsistirem e sofrem mutação atrás de mutação, escarnecendo (se o pudessem fazer) das tentativas infrutíferas dos que querem matá-lo. Foi assim noutros tempos : há um século, há muitos séculos, há milénios. Basta um breve relance pela História e uma análise dos relatos possíveis para percebermos a inexorabilidade das transformações que podem ocorrer: todas em simultâneo ainda que com roupagens exterior diversas, de acordo, com modos de ver, também eles diversos, mas que acontecem , aconteceram ou acontecerão ( escolham o tempo verbal que mais vos convier.).
O tempo, esse sofisma da racionalidade, essa marca do poder com que apetecemos tudo submeter ao nosso jugo, essa ilusão com que mascaramos o nosso desejo de controlo. E, contudo, o tempo é uma soberana e incontrolável mistificação.

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