Cultura, Literatura e Filosofia

OS LUGARES DO MEDO

Soni Esteves

Por estes dias, quando saio à rua para o primeiro passeio do meu cão, ainda a noite se despede. Às vezes, quando a vejo deslizar, hesitante, por entre o horto, roçando o longo manto negro pelas ruínas do velho casarão de quinta antiga, sou surpreendida por um súbito ruído na ramagem, um ramo que se estende, um resto de teia de aranha orvalhada, e o meu coração ensaia um novo compasso. É uma espécie de medo pueril, daqueles que, como espantalho de horta, primeiro desassossegam e depois divertem.

Foi a minha avó que me ensinou a rir do medo, mas também a respeitá-lo e a enfrentá-lo. A minha avó já morreu faz muito tempo, se fosse viva teria cerca de 130 anos. Cresceu no meio de histórias e crenças muito enraizadas, onde espíritos vagueavam por entre os mortais e o diabo aparecia, circunstancial, a tomar conta das almas que se aventuravam por caminhos sombrios. Ensinou-me também as orações que afastariam o capeta, pela certa, caso ele tentasse divertir-se no meu medo e entrar à socapa no meu coração. E então eu, que confiava na sabedoria da minha avó, quando pressentia um roçagar impreciso no meio da folhagem, uma sombra a mover-se, indistinta, no vazio da noite, fazia o sinal da cruz e dizia “Cruz, Cruz, Santo Nome de Jesus”.

O capeta já não me assusta, e o medo, que foi muitas vezes meu parceiro de curtas viagens, é hoje visita que dispenso receber. Impiedoso, avaro e ciumento, o medo é amigo da solidão e alimenta-se da ignorância dos simples.

De mansinho, muitas vezes disfarçado de velho conselho de mãe, porto de abrigo, é corpo indefinido, coisa sem rosto, caverna escura que, entrando pelos nossos olhos abertos em assombro, desliza pelo bater do nosso coração e espanta a poesia que lá mora. Não precisa de convite e não pede licença para se instalar. Só porque sim, entra nos nossos sonhos e, como sombra pequena plantada em leira fértil do coração, vai crescendo e adensando como noite de breu, até não haver chão, nem céu com estrelas, ou luar. Sentimos então um frio que vem não sei de onde e nos enregela e paralisa. De repente, não há saída, e o dia não chega porque deixamos de crer que exista. O medo não é mais um sentimento, é um estado, é morada do corpo dominado, paralisado, como se nos expulsasse do que somos. E tão logo, o medo é tudo o que temos, o amor já se foi para muito longe de nós, e não há arco-íris capaz de curvar sobre as muralhas que impedem a luz e nos limitam o horizonte e a liberdade…. só vamos onde ele nos deixa ir.

E neste início de ano, particularmente difícil, penso que bem gostaria que a reza da minha avó conseguisse tornar risível o medo que nos ensombra e fosse capaz de destruir as sementes de mentira, raiva e ódio que, tantas vezes, ele planta nos corações. E, numa fé também feita de saudade, repito “Cruz, Cruz, Santo Nome de Jesus”.

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