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Cultura, Literatura e Filosofia

“O INVERNO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO”

Quando sopros gélidos anunciam

dores e causas perdidas

a vida vai ficando suspensa

em esperanças ardidas.

[Anabela Borges, Poesia, Janeiro de 2021]

 

Os candeeiros da rua faziam cintilar milhões de diamantes de geada nos passeios e nos relvados. […] Quando eu era criança, sentia uma curiosa exaltação em marchar sobre a neve imaculada. Era um pouco como ser o primeiro a chegar a um mundo novo”.

[John Steinbeck, “O Inverno do Nosso Descontentamento”, Edições Livros do Brasil, 2001, pp. 52, 53]

Anabela Borges

Quando eu era pequena, quase tudo o que vivia era como entrar num mundo novo. Porque quase tudo se revestia dessa “curiosa exaltação” própria desse tempo grandioso e inteiro que é a infância.

O tempo invernoso, do gelo sobre os tanques, da geada pingando lentos cristais nos portões das casas, era também esse tempo novo, esse mundo curioso, pronto a ser pisado, descoberto, abrindo-se como um leque de memórias a construir.

Marchava sobre o gelo: os pés humedecidos iriam muitas vezes ficar durante o dia inteiro gelados dentro das botas; as frieiras criando incómodos nos dedos dos pés e das mãos; a dificuldade de concentração provocada pelo frio excessivo; a escola fria e assustadora nos rigores de ensinar pela força e não pelo entendimento… E no entanto, no regresso a casa, o mesmo fascínio, a mesma atenção a tudo, a esse mundo novo a descobrir. A tarde mergulhando num azulado profundo, escurecido, a cair para a noite gélida; a minha boca soltando fumos curiosos; o meu fascínio de criança tocando tudo, com os dedos e com o olhar, os silvados e as giestas queimadas do frio; o chão escorregadio, o regato cantando um gutural lamento, um ou outro pássaro frivolento captando o último momento de luz do dia. Tudo era encanto e descoberta.

Agora: este é o Inverno do nosso descontentamento: nada parece atingir esse fascínio perdido; nada tem o mesmo encanto, o mesmo brilho. Tudo nos agasta, desgasta e nos tolhe; tudo nos traz desgosto e fadiga. O tempo interminável é agora um tempo sofrido, triste, não vivido, como pesadelo que queremos apagar. Agora: vivemos lado a lado com dores e fantasmas, todos os dias. Agora: queríamos viver diferente, sentir alegria e fascínio, exaltação e novidade. Votar, por pouco que fosse, àquele tempo inteiro de criança. Aquele, de outrora. Agora, um som incessante de lamento. Agora, uma intermitência na vida que não sabemos explicar. Não sabemos lidar…

A vida num suspenso de horas pedidas, turmalina esverdeada a ressurgir, quando em quando, em esperança. É isso: es.pe.ran.ça. Repito: ESPERANÇA.

E se não sabes onde procurar conforto, procura em volta, na luz. Vê: ela não falha. Repara: o fugaz esplendor da sua manifestação é esperança pura: o raiar da aurora, o arco-íris, o pôr-do-sol, um raio a rasgar o céu escurecido, uma clareira na floresta, a luz trémula da candeia, o clarão vítreo perpassando a janela. Por todo o lado, a cada instante da nossa vida, há vibrações de luz. A luz revela-nos o mundo, por pequenina que seja. Imperscrutável, insondável como o tempo, a luz acompanha-nos desde os primórdios da nossa existência.  A luz é uma réstia de esperança que nos assiste e não morre.

Fica em casa. Mas não percas a esperança.

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