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Cultura, Literatura e Filosofia

A GRÉCIA ANTIGA E O SÉCULO XXI

Regina Sardoeira

Penso na Grécia Antiga e nas primeiras investigações científicas e filosóficas de que há notícia, e imagino, na lonjura dos séculos VI-V a.C. , um mundo ainda jovem, uma natureza jucunda e saudável, pulsante e aberta à observação e ao deleite. 26 séculos depois, observo um mundo envelhecido, com o desgaste revelado à evidência. Um mundo onde as primeiras respostas, cuja verdade não foi desmentida mas somente adaptada ao fluxo tecnológico – quem há aí que negue a importância vital da água, do ar, do fogo, do eterno devir ou da permanência, do átomo, da divisão ou da unidade? – , surgem com uma frescura de revelação, um fluxo de energia, a que já nada corresponde.
Este nosso mundo é, efectivamente, um mundo velho, corrompido, sugado até ao âmago e logo carente de energia. Custa-me admiti-lo. E no entanto quando saio à rua e vejo a vida interrompida, máscaras a encobrir a expressão humana, espaços de encontro e convívio encerrados, a fruição do ar livre condicionada, as praças públicas vazias, assim como as ruas, e um espectro infeccioso a pairar sobre as cabeças humanas, tenho que aceitar que o mundo caiu num colapso extremo.
Há 26 séculos a Terra era jovem, se bem que, a crer na nossa ciência, já girava há muito em torno do Sol. Como pôde manter-se radiante e pura até essa época e alguns séculos mais, e bruscamente, neste nosso século XXI, mostrar os sintomas profundos de uma decadência decerto irreversível?
É esta consciência da velhice ignominiosa da morada dos humanos e da sua irreversível condição que me leva a voltar os olhos para a luminosa Atenas da antiguidade, a examinar, uma e outra vez, os balbucios lúcidos dos cientistas/filósofos desse tempo e as suas descobertas extraordinárias, para perceber, entristecida, que de modo nenhum conseguiremos recuperar a saúde. Sim, o mundo adoeceu pela mão dos homens, a Terra perdeu a virgindade impoluta dos inícios, no desbravamento impiedoso e cego dos investigadores, dilapidando, transformando, deitando abaixo, escavando, construindo por cima dos escombros para, depois, escavar de novo, desenterrando os tesouros que submergiu antes. O mundo foi enlouquecendo, aos poucos, primeiro de um modo quase invisível e por fim, abrindo, ao olhar de todos, uma cratera de terror.
Creio que todos darão conta destas verificações que registo aqui, creio que, neste momento, todos terão percebido a evidência do descalabro da Terra, assim como da vida humana que nela assenta. Quem consegue habitar numa casa em ruínas? Ora a nossa morada comum apresenta fortes sinais de ruína, umas, já visíveis, outras, ainda ocultas.
Nesta fase da vida humana, a decadência chegou ao nosso modo de viver, reprimidas que estão as actividades mais comuns e quotidianas, aquela base de que escassamente dávamos conta, mas que alimentava o nosso dia a dia. Dizem- nos para ficarmos em casa, como expediente necessário para a contenção da escalada infecciosa. Ficamos, claro, para onde iríamos numa cidade onde as lojas estão fechadas e os cafés e outros espaços sociais, onde há vigilância sobre que entra ou sai, onde o ar livre tem de ser fruído em tempo curto e os amigos devem ficar à distância? Só que ficar em casa não resolve o problema, apenas contém, por algum tempo, a marcha das infecções!
Assim sendo, anula-se todo o optimismo em relação ao futuro que parece estar comprometido, que nos ameaça com novos e desconhecidos inimigos. Pouco importa saber de onde veio o vírus que mudou a nossa vida, pouco importa supor que a sua propagação é fruto de uma conjura das élites mundiais, ávidas de executar uma selecção da raça, matando os mais velhos e mais fracos e destruindo a sanidade dos outros. É bem provável que os donos do mundo conspirem e prossigam nos desígnios tenebrosos e já conhecidos pelos quais querem reduzir a humanidade a um modelo acéfalo e submisso. A questão reside substancialmente em sabermos, nós que ainda somos lúcidos, como reorganizaremos a vida, não depois de o vírus ter terminado o seu ataque, mas com ele e para além dele!
É então que evoco, de novo, a Grécia Antiga, essa, que gerou a Ciência e a Filosofia, essa, cujos ares eram límpidos e onde se festejava a vida na praça pública. Ali pôde verdadeiramente nascer uma grande civilização, pois a Terra estava fértil e saudável e os homens tinham uma grande luz dentro deles à espera de expandir-se. Hoje o mundo continua vasto e a Terra tem as mesmas dimensões: mas o desgaste anunciado manifestou-se e a ruptura aparece-nos de um modo iniludível. Os homens têm medo uns dos outros e muram-se por detrás da máscara imposta e das paredes das suas casas e aceitam, em nome de uma duvidosa regeneração, o sacrifício da liberdade.
Não sei bem o que deveremos fazer, nós todos que, diariamente, a cada despertar, somos confrontados com o mal deste tempo. Não sei se deveremos continuar nesta senda absurda, seguindo ordens daqueles que sabem tanto como nós, mas podem legislar e mandar executar, ou se devemos soltar amarras e sair dos abrigos expondo o peito às balas. A prudência diz para não o fazermos: mas aceitar esta não-vida, permitindo que a excepcionalidade se transforme em acto comum, degradando a nossa condição, não será um atentado ao nosso destino, prefigurado nas sábias investigações dos gregos do século VI/V a.C.?
Urge reflectir.

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