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Cultura, Literatura e Filosofia

O TEMPO DA GRANDE ANTÍTESE

Regina Sardoeira

No livro “O pensamento complexo”, Edgar Morin destaca dois possíveis factores que podem desviar as mentes do real entendimento do pensamento complexo.

O primeiro refere-se ao engano de acreditar-se que a complexidade conduz à eliminação da simplicidade. Segundo Morin ela – a complexidade – realmente surge na falha da simplicidade, mas “integra tudo aquilo que põe ordem, clareza, distinção, precisão no conhecimento” (p.6). O pensamento complexo agrega todos os possíveis modos simplificadores de pensar, mas não dá espaço às implicações redutoras, unidimensionais, mutiladoras, enquanto o pensamento simplificador desfaz a complexidade da realidade.

O segundo refere-se à confusão entre complexidade e completude.
O desejo maior da complexidade consiste em manejar as articulações entre os diferentes campos disciplinares que são desmembrados pelo pensamento disjuntivo – segundo Morin é um dos aspectos do pensamento simplificador – o qual, ao fragmentar determinado conhecimento, isola o que foi separado e oculta possíveis religações.
Assim o pensamento complexo busca o conhecimento multidimensional. Porém reconhece que a obtenção de conhecimento por completo é impossível de ser alcançado. Ele sugere, portanto um reconhecimento de um princípio de incompletude e incerteza, além de um reconhecimento da ligação entre os aspectos que a nossa mente deve distinguir sem isolar uma das outras, constituindo a noção de completude.

Devemos ter em mente que o pensamento complexo aspira a um saber não fragmentado, não redutor, que reconhece que qualquer conhecimento está inacabado, incompleto, e oferece a possibilidade de ser questionado, interrogado e reformulado. Portanto “as verdades denominadas profundas, mesmo contrárias umas às outras, na verdade são complementares, sem deixarem de ser contrárias”

Descartes fez a disjunção, separando a realidade e o modo de a ver, com objectivos metodológicos, estabelecendo a dúvida radical na mira de ultrapassá-la. Não separou, de facto, o sujeito do objecto, o ser pensante da coisa pensada, pois não podia fazê-lo, dada a sua total interrelação. Mas realizou um exercício mental de desconstrução do habitualmente conhecido, no esforço de, eliminando por completo tudo aquilo no qual vislumbrasse o mínimo erro, aceder ao indubitável. Aparentemente conseguiu-o, atingindo a clareza e distinção, em si e para si, da absoluta necessidade de se conceber como um eu que pensa e existe.

Exercício mental, esforço metodológico somente, eis o escopo cartesiano que conduziu à total e absoluta prisão no próprio eu, ou solipsismo.

O erra de Descartes não foi esta separação, pois ela é somente metodológica, nas sim a tentativa artificial de romper o solipsismo através das provas da existência de Deus, o garante da verdade que ele encontra em si, com evidência, mas não consegue justificar só por si, ser imperfeito que duvida. Deus é a garantia suprema do que ele alcançou como intuição sem poder deduzi-la de si próprio.

“O pensamento complexo agrega todos os possíveis” e é por isso que o conhecimento nunca está acabado. Há, no presente, no futuro e mesmo no passado, muitas respostas, para os mesmos problemas e muitos problemas a nascer dessas múltiplas respostas.

Uma imagem, a título exemplificativo, pode ser a paleta de cores necessária para obter, por exemplo, a cor do rosto, quando se pinta um retrato.

A base é constituída por vermelho, amarelo, azul, branco. Mas é necessário ir misturando aos poucos , afinando o tom, prestando atenção aos pontos de luz e sombra… A cor parece ser uma só e contudo exige uma grande complexidade e variação. E tudo é assim, na natureza e na história e em tudo o que diz respeito à vida e ao homem.
Hegel, filósofo idealista alemão do século XVIII, disse : ” O verdadeiro é o todo”, sendo que o todo nada mais é que a síntese dos contrários, presentes num certo desenvolvimento dialéctico. Exemplificando: a semente, deitada à terra, nega-se, enquanto semente, no acto de germinar, e a raiz, o caule, a folha emergem como o ser da planta e logo, afirmação do ser (nasce uma planta) negação de outro ser (a semente aniquilou-se). O botão irrompe como resultados do desenvolvimento da planta (novo ser); mas cedo se nega para dar origem à flor (negação do botão e afirmação da flor). A flor, contudo, nega-se, enquanto ser da planta, e nasce o fruto (negação da flor, afirmação de si, enquanto novo momento do desenvolvimento). Entretanto, a flor nega-se e o fruto surge como sua negação, afirmando outro momento na dinâmica da planta. Por sua vez, esta afirmação (fruto) desintegrar-se-á, dando à terra sementes que, negando o fruto, afirmarão futuras antíteses e sínteses no desenvolvimento natural.

Referindo-me à situação presente da humanidade, percebo que tudo aquilo que se passa hoje representa um estádio já contido no passado, embora não manifesto (tal como a planta está envolta na semente, a flor no botão, o fruto na flor e as sementes no fruto.). Digamos que este é um momento de negação ou antítese do estádio anterior, não manifesto mas lá presente, como face escondida. E, sem dúvida, as raízes de tudo o que virá a seguir andam por aí, ainda envolvidas, mas aptas para a criação da dinâmica do futuro. As possibilidades são muitas, talvez infinitas, talvez nos caiba sair da opressão da nossa própria cegueira (não da opressão que atribuímos aos outros) e soltar o que permanece ainda envolto.

Uma coisa é certa: o mundo anterior, aquele por que muitos suspiram, bloqueados em casa (e na sua própria mente) não vai regressar porque não é essa a dinâmica da vida ou da história. A semente que germina cumpre a sua função, desintegrando-se, não há retorno possível ao estado daquela semente específica. Será sensato acreditar que, com um estalar de dedos ou por decreto governamental, um destes dias tudo volta a ser o que já era?
Imbuídas de uma profunda alienação materialista e consumista, talvez mesmo hedonista, as pessoas querem a segurança do que já tinham e lhes era familiar. Isso não vai acontecer.

Quando tomei consciência disto, quando vi que estava, de facto, a viver, como todos, um momento de negação do paradigma instituído, senti-me, em simultâneo, privilegiada e angustiada: por um lado, iria assistir ao desmoronar de um tempo corrupto e viciado até ao âmago, e isso é positivo, por outro, as possibilidades quanto ao que surgirá do caos instalado são avassaladoras e nenhuma preferível à outra. Tal como as cores presentes na pele do rosto, indistntas, mas tornadas visíveis quando se procede à sua pintura e se adicionam as tintas necessárias na paleta.

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