Cultura, Literatura e Filosofia

«NO MEIO DO NADA»

Maria João Covas

Quando se fala de literatura e de dar opinião sobre livros, regra geral estamos à espera de ler sobre autores conceituados, ou pelo menos, já com uma carreira. De facto, todos os autores sobre os quais tenho escrito e referido nesta coluna são pessoas com carreiras reconhecidas, ou, pelo menos, pessoas conhecidas.

Hoje vou falar sobre um primeiro livro de uma autora que, tenho a certeza, vai, com o tempo, ser conhecida e reconhecida, embora por agora seja um nome estranho.

Começo por confessar que é minha amiga (daí ter tido acesso ao livro) e é uma pessoa linda por dentro e por fora. É mesmo uma daquelas novas pessoas da minha vida que eu quero, muito, que perdurem. Afinal este tempo de confinamento permitiu-me estreitar laços com pessoas que tinha conhecido pouco antes.

Mas isto nada tem a ver com o livro. Quando se trata de análise literária e de opinião não vou defraudar quem me lê ou quem me escuta. Nem por um amigo. Tenho a obrigação moral e, acho, o conhecimento profissional de saber distinguir a pessoa do autor, o amigo do criador literário. E é deste último que vos vou falar hoje.

Rosária Casquinha da Silva, de seu nome, publicou em 2020 o seu primeiro livro de ShortStorys “No meio do nada”.

Continuando nas confissões, quando soube do título do livro fiquei perplexa. “No meio do nada”? Mas a verdade, é que depois de o ler faz todo o sentido. Rosária Casquinha da Silva conta-nos histórias sobre nada. Nadas, que são tudo. Passo a explicar: o livro conta-nos situações que sendo do dia-a-dia de todos nós, visto de fora acabam por ser, coisa nenhuma. E na realidade, seriam pequenos nadas se não fosse a magia e a arte narrativa de quem transforma um sifão entupido numa história que nos põe a sorrir, num acontecimento literário. Ou quem transforma a leitura e o livro, em algo pessoal, homenageando autores e personagens que se amam em duas páginas e meia. Ou ainda quem trouxe há minha memória, ao meu odor e ao meu coração recordações da minha avó Dores, que para ela se chamava Leocádia. Isto para não referir, mas já referindo, a boneca dos Armazéns Grandela ou a insónia que me acompanha em muitas leituras. O livro é um conjunto de pequenos nadas que acabam por ser os episódios importantes que acompanham a nossa vida e com as quais construímos as nossas recordações, a nossa individualidade.

Para além de todo este contexto temos a escrita da Rosária. Uma escrita que brinca com o leitor, que lhe pisca o olho nuns finais que são surpreendentes. Uma escrita leve, correta e sentida, onde autor e leitor dão as mãos e constroem em conjunto um texto que sendo do seu autor acaba por ser nosso também. Assim sendo, só tenho de agradecer as lembranças que estas pequenas histórias me proporcionaram e me encheram o coração.

Como perceberam continuo a escrever sobre autores portugueses. Sobre os nossos. Sobre aqueles que, num momento como este, devemos acarinhar, reconhecer e, por que não, proteger. Afinal o que é português é bom. E se tudo correr bem, e a vossa paciência ajudar em março cá estarei com um outro livro, um novo autor e, quem sabe, português.

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