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Saúde e Vida

UM EPÍTOME SOBRE DEPRESSÃO INFANTIL

Ana Miranda

Os desafios consideráveis para as famílias, gerados pela pandemia COVID-19, repercutiram-se em grande escala, no comportamento e desenvolvimento infantis. As medidas instituídas de isolamento e distanciamento social, com vista à redução da propagação da doença, forçaram as crianças a um ajuste abrupto a uma nova realidade, condicionando negativamente o seu processo evolutivo (situação ainda mais preocupante em crianças já diagnosticadas com doença mental, exacerbando-se caraterísticas de agitação, impulsividade e conduta disruptiva – e.g. Perturbação do Défice de Atenção e Hiperatividade e Perturbação do Espetro do Autismo).

Sendo a permanência no domicílio e a limitação das atividades exteriores, imposições irrefutáveis, a existência de um ambiente familiar estável e harmonioso nesta fase, revela-se imperioso. Pese embora as sequelas individuais infantis da pandemia, perturbações no seio familiar e na saúde mental dos progenitores/cuidadores também podem surgir ou acentuar-se, provocadas pela partilha exaustiva do espaço e pelos embaraços pecuniários.

São vários os estudos que apontam para um aumento considerável da Depressão Infantil, no período pandémico, o que fica de atingível compreensão depois do explanado.

Como saber, então, se o seu filho, sobrinho ou neto … se inclui nesta estatística? E como o pode ajudar?

Ora, a Depressão Infantil é comummente diagnostica depois dos 5 anos de idade (ainda que possa irromper antes), sendo as suas causas multifatoriais. Trata-se de uma diagnose periclitante, que exige uma análise escrupulosa. A apresentação dos sintomas está subjugada aos vetores da idade e do nível maturativo da criança. Por dificuldades ao nível do raciocínio abstrato, as crianças tendem a somatizar as emoções, exteriorizando a tristeza por meio dos sintomas físicos.

Os sinais mais evidentes, e que poderão ser indicativos da manifestação desta perturbação na criança são: as dores de cabeça e/ou abdominais, a tristeza constante; a enurese e encoprese; a irritabilidade; a dependência dos progenitores; a indecisão; a existência de múltiplas fobias; os sentimentos de inferioridade; as variações de apetite e peso; as dificuldades de concentração; a agitação; o atraso na linguagem; o isolamento; a perda de interesse por atividades anteriormente prezadas; perturbações de sono; a birra e o choro fácil; o fraco rendimento escolar; o cansaço e a recusa em ir à escola (que, nesta conjuntura, se traduz na renúncia de assistência às aulas online, com execução do estudo subsequente).

O tratamento da Depressão Infantil segue, por norma, uma linha multidisciplinar, envolvendo o pediatra, o psicólogo, o psiquiatra (a partir dos 9 anos, sensivelmente, com toma de fármacos como a sertralina, fluoxetina e paroxetina ou estabilizadores de humor, antipsicóticos e estimulantes profusos) e os próprios pais, familiares e professores; tendo uma duração mínima de 6 meses, para evitar as recidivas.

Atitudes como o respeito pelos sentimentos da criança; o incentivo, sem pressão, ao desenvolvimento de atividades lúdicas; o elogio e a atenção constantes; o fomento da interação com outras crianças; o evitamento da solidão na mesma; a regra da alimentação de 3 em 3 horas e o estabelecimento de um ambiente confortável na hora de dormir irão auxiliar a criança a adquirir confiança, segurança e autoestima, o que mitigará, paulatinamente, e em articulação com a abordagem terapêutica eleita/priorizada pelos profissionais de saúde enredados, o registo depressivo.

Detetando uma mudança significativa no comportamento das crianças que tem a seu cargo, procure de imediato quem de direito possa atestar e suplantar tal distúrbio, diferenciando-o das normativas oscilações etárias de personalidade. Quanto mais solícito e acurado se mostrar, maior a hipótese de, num curto hiato de tempo, debelar o transtorno, escudando os seus!


Psicóloga Clínica – Clínica Osvaldo Moutinho, Amarante

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