Home>Cultura, Literatura e Filosofia>PURIFICAR VALORES DA NOSSA SOCIEDADE?
Cultura, Literatura e Filosofia

PURIFICAR VALORES DA NOSSA SOCIEDADE?

Parte I

(englobada numa crónica com quatro partes)

Jorge Nuno

Continua a assistir-se – por vezes de forma extremada –, a uma polarização entre a visão glorificadora de um império que se esfumou e que tinha sido preservado durante cinco séculos, sentindo-se desalento, frustração, até mesmo raiva, com necessidade de apontar o dedo acusador e, por outro lado, uma tentativa de criminalização do nosso passado, como nada tendo de glorioso, achando-se que estará na hora de purificar os valores da sociedade atual, mesmo que implique igual apontar de dedo acusador e, mais do que isso, uma necessidade urgente de fazer um revisionismo histórico, com contestação cultural da história, passando por querer esconder ou destruir os símbolos dessa mesma história.

Uns e outros, certamente esquecem que a história vive de memórias e não prescreve; que nem sempre temos consciência da complexidade da história, de aspetos que levam a que, por exemplo, a história narrada aos alunos, durante o regime do Estado Novo, seja uma, e que, pós-25 de abril de 1974, seja inevitavelmente diferente. E falamos de um pequeníssimo período de tempo, comparativamente aos mais de 800 anos deste país, em que muito de bom e mau aconteceu!

Trazer para os dias de hoje só os aspetos negativos da nossa história e pretender fazer operações plásticas ao passado, fazendo uso de radicalismos exacerbados, em nada favorece o desejado encontro de culturas, a descriminação racial, a convivência sadia entre povos, perante a realidade – factual – deste pequeno país ter criado o primeiro império global da história, iniciado no final do séc. XV, com possessões em África, América do Sul, Ásia e Oceânia.

Lendo Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global, obra do historiador Roger Crowley, especializado em história marítima e mediterrânea, fica-se com uma ideia, nua e crua, da dimensão do tráfego de escravos, da brutalidade da destruição de vidas, particularmente na costa oriental africana e na ásia, da própria destruição do comércio a oriente, a envolver muçulmanos – por quem, na época, se cultivava um ódio de estimação e eram vítimas, aquando dos implacáveis abates de embarcações carregados de pessoas e bens –. Sim, tudo isso não foi abordado nas escolas portuguesas, apenas os feitos gloriosos.

Por alguma razão, em 1998, a Índia não se associou a Portugal nas comemorações dos 500 anos da chegada de Vasco da Gama àquele país! E, pelo que se pode constatar, durante a leitura do referido livro, com estes capítulos da história, tiveram toda a legitimidade e é compreensível – ao preservarem essa memória histórica – que os indianos não estivessem minimamente satisfeitos com os portugueses daquela época, nem com os portugueses, de há um quarto de século atrás, que organizaram essas comemorações. Aliás, as relações diplomáticas entre Índia e Portugal só foram normalizadas após 25 de abril de 1974.

Mas vejamos como se chega a esse primeiro império global, criado em nome da fé, com um rei a julgar-se “messiânico”, firme na intenção de “destruição do bloco islâmico”. Falamos do rei D. Manuel I, que assumia, pomposamente, o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia”, quando para outros reis da Europa era visto como o “rei merceeiro”, por comercializar especiarias. É que além da bênção do Papa Júlio II, com direito à «posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações», chegou a ser-lhe concedido, pelo mesmo Papa, em julho de 1505, «um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse». Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre de condenação divina, embora a bravura de muitos dos marinheiros resultasse do facto de serem prisioneiros, a quem lhes era dado oportunidade de sair da prisão e ir à aventura, conhecer “outros mundos”, em liberdade.

Há quem avance, agora, com a ideia de se destruir o Padrão dos Descobrimentos, localizado na zona Belém, junto ao rio Tejo, em Lisboa. O monumento original foi criado em 1940, com materiais perecíveis, em pleno regime salazarista, por ocasião da Exposição do Mundo Português. Com esta exposição, pretendia-se comemorar a fundação de Portugal [1140] e a restauração de Portugal [1640], e este monumento seria “para homenagear as figuras históricas envolvidas nos descobrimentos portugueses”, mas poderia funcionar como propaganda do Estado Novo, para exacerbar nacionalismos e fortalecer o regime ditatorial.  Em 1960, no mesmo local, foi criada uma réplica, em betão e em pedra, onde podem ser apreciadas as enormes esculturas de Leopoldo de Almeida. Estas, são representativas de várias figuras de notáveis da história deste país, muitas delas baseadas nos seis “painéis de São Vicente de Fora”, criados por Nuno Gonçalves, pintor régio de D. Afonso V. Naquele espaço, funciona o Centro Cultural das Descobertas, tem um auditório, duas salas de exposições e um miradouro.

Podemos não gostar das atrocidades cometidas durante as Descobertas, tal como podemos não gostar das atrocidades cometidas pela polícia política do regime do Estado Novo, mas ocultar ou escamotear essa realidade, ou, pior, aceitar esta onda de intolerância e de preconceitos com a história, que leva a querer destruir monumentos evocativos dessa mesma realidade histórica, é outra atrocidade que não se deve permitir. Nem que as peças escultóricas funcionem como interesse museológico, já que há muito deixaram de funcionar como propaganda do regime. Será deste modo que se purificam, na atualidade, os valores da nossa sociedade?

(Continua na Parte II, de IV)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.