Cultura, Literatura e Filosofia

UMA OUTRA PÁSCOA

Soni Esteves

Há datas que carregam memórias, às vezes são pedaços de lembrança, visão fragmentada de coisas, pessoas ou momentos; às vezes diálogos, espaços que não reconhecemos mais; outras vezes, apenas nós, como se fossemos outro ou tivéssemos vivido uma outra vida.

Haverá sempre na nossa memória uma construção qualquer que não se faz de realidade.  Luís Sepúlveda escreveu “nunca confies na memoria porque está sempre do nosso lado: suaviza a atrocidade, dulcifica a amargura, põe luz onde só houve sombras”. Por isso, quando repenso a minha infância, nunca sei se a retrato, ou reinvento.

Estas reflexões surgem, desta vez, a propósito da Páscoa. Confesso que não é uma das minhas festas de eleição, mas já foi, num tempo que vem até mim, envolto em cores e sons primaveris. Lembro que os sinos enchiam o ar logo pela manhã, e talvez a passarada esvoaçasse, aturdida, pelo repique insistente que anunciava a saída do compasso. Havia tapetes coloridos desenhados nos caminhos, pétalas a cobrir o pedaço de chão que marcava a entrada das casas. Quem não tinha flores pedia-as, ou ia apanhá-las nos caminhos ou nos campos. A minha mãe costumava dar pétalas de rosas de Alexandria (as mais perfumadas que conheço), quando estas floriam a tempo. E eu pedia sempre alecrim e aleluias ao Serantone, que ele me oferecia em ramalhetes, com mil cuidados, não fosse a flor cair, antes do destino final.  Não existe, ainda hoje, jardim algum no mundo capaz de provocar em mim a alegria que aqueles tapetes toscos causavam, apesar de frágeis e efémeros. Seriam, por certo, passadeira real. Receberiam o Rei do Mundo que, por milagre divino, ressuscitara nesse terceiro dia, conforme aprendia na catequese.

E de repente, uma alegria nova fazia as ruas da aldeia parecerem corredores de uma casa grande que se alindava para receber Jesus. E quando o som das campainhas soava ao longe, sabíamos que estava prestes a acontecer aquele momento mágico em que o Senhor ressuscitado nos visitava. E era tudo tão lindo e perfeito naquele cortejo ruidoso! “Aleluia! Aleluia!”, diziam. E os rapazes seguiam aquele séquito, cada um sonhando, um dia, poder fazer soar as campainhas, carregar o saquinho púrpura com o folar do padre, a caldeirinha da água benta, quem sabe a Cruz.  O Senhor Padre dava-nos o Senhor Jesus a beijar, e havia em mim uma espécie de desconforto, como se naquela festa que comemorava a vida, não encaixasse um rosto sofrido e um corpo pregado numa cruz, ainda que perfumada e adornada de flores.

Uma vez, o Senhor Padre (o velhinho Padre Esteves que costumava fazer tremer de medo ou corar de vergonha os paroquianos, com os seus recados, no meio da missa) deu-me um “santinho” que representava Jesus ressuscitado. Não estava pregado na cruz e levantava ligeiramente as mãos, como se estivesse a preparar-se para nos abraçar. E lembro-me de pensar que essa era a imagem que eu gostaria de ver entrar em minha casa para celebrar a alegria e a vida.

Este ano, muita gente comungará, por certo, da minha nostalgia, talvez não da Páscoa da infância, mas daquela que ainda há dois anos se vivia. Este ano, talvez se faça ouvir o repique dos sinos, o ladrar assustado dos cães quando estourar um ou outro foguete perdido nos céus, haverá amêndoas e pão-de-ló, seguramente, talvez mesmo alguns ajuntamentos cautelosos… e todos sonharemos uma outra Páscoa.

 

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