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Cultura, Literatura e Filosofia

A CONDIÇÃO HUMANA – II PARTE

Regina Sardoeira
Tudo aquilo que escrevo fica a ecoar, mais ou menos tempo, em mim, na consciência, na memória ou mais fundo ainda. Retorno ao tema, constantemente e vou-o ampliando interiormente como se de uma escrita intuitiva se tratasse.
Após ter reflectido sobre a incapacidade real de nos conhecermos integralmente, enquanto totalidade, ou mesmo na imediata componente corpórea, e de ter escrito sobre isso, reflecti, para além do “penso, logo existo” de Descartes, nas “verdades” descobertas por outros pensadores.
Imediatamente evoquei Sócrates, essa personagem envolta em lenda, e ainda a frase que lhe é atribuída: “Só sei que nada sei.”
Platão, na sua obra “Apologia de Sócrates”, conta o motivo que levou o “mestre” a chegar a essa radical declaração de ignorância.
Os atenienses interrogavam o oráculo de Delfos a propósito de inúmeros problemas ou curiosidades e, entre muitas questões, quiseram saber quem era o homem maîs sábio de Atenas. Invariavelmente,  o oráculo respondia: “É Sócrates”.
Foram ter com ele e falaram-lhe da repetida e sempre igual resposta do oráculo. Sócrates decidiu investigar entre os seus concidadãos acerca das razões desse intermediário do deus Apolo, relativamente à superioridade da sua sabedoria.  Ele terá sentido uma dupla certeza: ” Eu não sou o homem mais sábio da Grécia. Sei, pelo contrário, que sou ignorante. Porém, o deus não pode estar enganado, pelo que necessito perceber as razões dessa afirmação.”
Decidiu, então, questionar os homens importantes de Atenas, tidos e consagrados como sapientes. Questionou os poetas, os comerciantes, os políticos, os mais ricos e influentes da cidade, e, ao cabo desse périplo, durante o qual levou ao limite a técnica do questionamento incessante que ele bem conhecia, percebeu que todos eles, sem excepção, após um breve tempo, se confundiam, titubeavam,  proferiam afirmações e conceitos erróneos. E Sócrates foi percebendo que aqueles homens todos eram ignorantes e não o sabiam; mas  ele tinha, sobre eles, uma vantagem, ele sabia que não sabia, ele conhecia a profunda dimensão da sua ignorância. Por essa razão, o deus, falando pela voz do oráculo,  tinha razão.
Supondo verdadeira a narrativa de Platão acerca dos pensamentos e atitudes do mestre, a sentença socrática que afirma a nulidade do nosso saber e eleva à categoria de suprema sabedoria o reconhecimento da ignorância, que é, por isso mesmo, douta, resume o poder do nosso conhecimento. Nada sabemos, efectivamente, vogamos nas ondas de uma grande ilusão, talvez tenhamos, oculto nos arcanos da nossa mente, ou alma, a semente da verdade: tal como disse Platão, falando a língua de Sócrates e também Descartes ao supor que Deus terá posto em nós as ideias inatas pelas quais (se acaso as descobrirmos) poderemos aceder a um número muito restrito de verdades…as matemáticas, essencialmente.
Kant, séculos mais tarde, depois de escrever uma grande obra chamada “Crítica da Razão Pura”, onde investigou, pormenorizadamente, as capacidades cognoscentes do homem, concluiu que podemos conhecer somente fenómenos, ou seja, aquilo que aparece aos nossos sentidos, enquadrá-los no espaço e no tempo (condições da nossa subjectividade) e, posteriormente, articular uma ordem entre eles, com modelos presentes no nosso entendimento (e logo, subjectivos, uma vez mais).
Logo, o eminente pensador da Idade das Luzes percebeu também que somos reféns absolutos da estrutura da nossa mente, pelo que todo o conhecimento é subjectivo.
E é, decerto, por essa mesma razão que, ao cabo de anos de estudo, Kant afirma:
“Duas coisas me povoam a mente com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes…o céu estrelado por cima de mim e a lei moral dentro de mim.”
E que dizer de Wittgenstein que considerava não haver problemas filosóficos mas sim enigmas filosóficos de impossível dilucidação? E é nessa linha que ele termina o seu Tratado Lógico-Filosófico:  “Aquilo que se pode dizer deve ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio.”
Poderia continuar, talvez continue. Mas creio ter acrescentado mais alguns pontos àquilo que considero ser a súmula da condição humana.

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