Cultura, Literatura e Filosofia

O FRENESIM DAS MASSAS

Regina Sardoeira
O frenesim apossou-se, uma vez mais , das massas. Ansiosas por regressarem ao tumulto, fazem-no a propósito de tudo e de nada: a pé, de automóvel, pelas ruas e praças, como se o ar da residência se tivesse tornado, subitamente, poluído e a outra poluição da cidade fosse mil vezes preferível.
Eu compreendo esta necessidade de fuga que assola o humano, ávido de acotovelar o próximo, sedento de reentrar no ciclo consumista, saturado dos liames impostos na decorrência de uma situação anómala. Compreendo estes comportamentos na medida em que a civilização gerou este ser humano ansioso, em corrida para nenhures, este ser feito de superfícies planas, sem profundidade tangível na imediatez das atitudes. Não são as florestas, os cumes das montanhas, a bravura solitária do mar que lhes povoam os sonhos advindos da resignação frustrada, mas sim o bulício frenético dos locais pejados de gente em fúteis ocupações. As massas, essas a que me referi no início, desejam os bares onde entorpecem a  mente nos vapores da bebida e no diálogo vazio, os centros comerciais, imagem tecnocrata das cidades, sem atmosfera, sem chão, sem céu azul, as longas filas de trânsito onde cerram os dentes na ânsia da chegada a sítio nenhum, o bulício das romarias, dos festivais, todo esse tumulto desgastante mas, ao que parece, indispensável. Tudo conspira para que essa avidez por aquilo a que chamam liberdade, mas que não passa de múltipla alienação e logo, múltipla escravatura, agite os membros dos que, escassamente, conseguem contiver consigo próprios.
Há toda uma vasta e actuante tecnologia que, lentamente, foi substituindo o usufruto natural do corpo e da natureza. Vejo pessoas que passam o dia sentadas em frente de um ecrã, de livre vontade, e depois vestem um fato de treino e saem para a rua em corrida desenfreada. Não há qualquer sentido nessa corrida, nenhum pensamento, nenhuma elevação mental e, nem sempre, ganhos energéticos assinaláveis. Essas corridas são o produto da publicidade, da moda, da momentânea tentativa de adquirir um corpo tonificado, a duras penas, para a seguir travar a disputa da competição com os seus congéneres.
A propósito, evoco uma imagem do livro “O filósofo e o lobo”, de Mark Rowlands – o honem que adoptou um lobo como animal de estimação e viu a sua vida transformada pela sua presença. A partir do momento em que o lobo Brenin passou a fazer parte da sua existência, Mark aprendeu sublimes lições acerca dos animais, da natureza, de si próprio e dos outros humanos. Brenin e Mark costumavam correr juntos e, nesses episódios de companheirismo, o homem nota a deselegância desajeitada dos seus próprios movimentos de homem que corre, em comparação com a harmonia e naturalidade do animal selvagem feito para o usufruto da floresta. Correr é natural para um lobo e desajustado para um homem que só se torna apto para vencer longas distâncias após intenso treino, ao revés do lobo que nasce para isso.
O homem, esse animal racional, esse cérebro grande e complexo, foi capaz de se elevar acima de todos os animais, numa ânsia de domínio que, afinal, em nada se justifica; mas não sabe onde pertence. Cada um dos outros seres da natureza conhece o seu lugar e nele se instala, numa adaptação que lhe é intrínseca . O homem, não.
E e por isso que,  contrariando o seu verdadeiro destino, cujas linhas escassamente conhece, foi construindo um habitat desumanizante, crendo que, por essa via, assumia o controlo de tudo quanto existe. Depois deste salto, ora sincopado, ora brusco, daquilo a que se chama civilização, reencontrar a verdade de si não será mais uma possibilidade para o homem. Resta a turba, a massa, a horda, tanto mais acéfala quanto mais crente no seu potencial de domínio, tanto mais excêntrica quanto mais necessitada do seu verdadeiro centro.

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