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VIVER A PÁSCOA

José Castro

As diferentes expressões de religiosidade assentam em livros frequentemente tomados como sagrados e, por vezes, mesmo como científicos. São igualmente livros de um passado longínquo, com centenas e mesmo milhares de anos, que ao longo do tempo sofreram alterações (umas intencionais outras não) em parte seja devido à enorme dificuldade em serem traduzidos para as línguas atuais. A acrescentar a tudo isso, infelizmente, somar a destruição (de registos e imóveis) que o ser humano foi fazendo aquando da ocupação ou colonização de povos que pensavam, viviam e sentiam de forma diferente. O fundamentalismo, o fanatismo que assenta na prática do terrorismo infelizmente ainda é uma realidade. Saber que por causa dos “Deuses” ou “Deus” se matou (e mata) e se destrói, faz com que muitos se afastem de qualquer tipo de espiritualidade ou religião! Por vezes, igualmente assistimos ao “fanatismo” ateu, como retaliação ao fundamentalismo religioso. Esta polarização leva pois à mobilização de movimentos na sociedade que fundamentados em posições políticas não olham a meios para impor o seu ponto de vista!  

Que fazer? Aqui vai uma sugestão: 

Em primeiro lugar “pensar” porque pensa assim! Que consequências trás à sua vida e à dos outros seres o “pensar” assim!  

Em segundo, ter um interesse genuíno em refletir sobre o que leva o outro a pensar de forma diferente ou oposta e igualmente prever as consequências dessa forma de pensar. 

Jamais poderemos esquecer que dos dois lados estão seres humanos que “alegadamente” querem construir uma sociedade melhor (essa será a premissa de base)! Em jeito de “brincadeira” precisamos de crentes que tenham a coragem de se questionarem como ateus e de ateus que tenham a coragem de ponderar para as suas dúvidas de respostas espiritualistas racionais. A solução está em colocar uma “pitada” de crença espiritualista ou, por sua vez, colocar uma “pitada” de ateísmo quando necessário. Aliás, mais importantes que os fundamentos teóricos em que se alicerçam os seus valores será sempre a ética e a prática efetiva de cada um para a construção um mudo melhor. Presumo que esta “mistura” será bem menos explosiva que radicalismos opostos! 

O que isto tudo tem a ver com a Páscoa?  

Como estamos num país maioritariamente cristão muitos celebram a Páscoa. À semelhança do Natal aparecem simbologias pagãs, como os ovinhos (símbolo de nascimento) e o coelho (símbolo de fertilidade) a lembrar a “passagem” para a primavera. A Páscoa vivida pelo judaísmo simboliza a “passagem” para a liberdade do povo de Israel (ou parte deste) após cerca de quatrocentos anos de cativeiro, na altura em que o Egipto era atacado pelos chamados Povos do Mar. Daí a simbologia do pão ázimo (não houve tempo de fermentar), ervas amargas (sofrimento). A referência da imolação do cordeiro, comido assado e cujo sangue marcava as ombreiras das portas para que o “anjo da morte” pulasse para a casa seguinte, sem eliminar o primogénito. Por analogia Jesus seria igualmente o Cordeiro de Deus “Agnus Dei” que teria sido sacrificado para a remissão do pecado original. Assim, para os cristãos toda a paixão, crucificação e ressurreição de Jesus têm um intenso simbolismo. Curiosamente, a questão não está na veracidade ou não desse simbolismo! A questão estará sempre no que a interpretação desse simbolismo o “melhora” e o torna mais feliz como cristão! Essa transformação deve fazer-se acompanhar de uma prática sucessivamente mais ética e pacífica para todos os seres.  

Claro que algumas questões podem ajudar a refletir: 

Faz sentido em pleno Séc. XXI  (por mero ritual)  “imolar” um cordeiro ou cabrito, mesmo que para alimentação? 

Por que a prática do preceito da abstinência da carne nas sextas-feiras durante a Quaresma e respetivo significado moral, não é continuado ativamente ao longo do ano, como previsto pelas normas da Igreja? 

Se não houvesse “milagres” como viveria a sua fé? 

De que forma a dita ressurreição de Jesus o pacifica perante a morte dos seus entes queridos ou da sua própria morte? 

De que forma é que a “paixão e morte” de Jesus o leva a perdoar-se a si e aos outros? 

Quanto mais feliz e pacificador se vai sentir após a Páscoa? 

Provavelmente a introdução de uma “pitada” de ateísmo (racionalismo) para as possíveis respostas poderá intensificar o sentido da Páscoa e permitir-se a uma transformação mais profunda. Experimente!  

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