Cultura, Literatura e Filosofia

NORMALIDADES

Regina Sardoeira
A normalidade é um conceito abstracto e, de certo modo, de cariz subjectivo. Diz-se que um facto é normal quando se ajusta, obviamente, às normas, cujo valor depende da circunstância; ora, a circunstância muda por força de factores, previsíveis ou fortuitos, que invadem o quotidiano abrindo novos paradigmas. Um fenómeno tão comum como a mudança climática, produzida pela entrada de uma nova estação, implica uma alteração significativa nos hábitos e comportamentos. Durante uns meses, o ser humano e também a natureza revestem-se de atavios novos, nada é como foi antes e pode mesmo acontecer lembrarmo-nos da estação anterior e compreendermos, escassamente, como pudemos agir desse modo.
O mundo, quer se trate da natureza, quer da sociedade tem a norma como condição de funcionamento. Ainda que, no que concerne à natureza, o determinismo tenha um peso considerável e o homem se limite a conceber as normas do seu funcionamento, a verdade é que um certo optimismo vai possibilitando a crença no amanhã. A ordem social, sendo de outra índole, porque baseada em regras estabelecidas pelos homens, depende do tempo, do espaço, dos costumes e tradições, vigorando hoje, contrariando as regras ancestrais, sendo subvertida amanhã, possibilitando, em cada época de vigência, um certo equilíbrio nos grupos sociais.
Contudo, nem as leis da natureza, já conhecidas e reconhecidas como sendo garantia do equilíbrio necessário, nem as normas da sociedade estabelecidas e aceites, tacitamente, por toda a comunidade, constituem factor  determinante de harmonia.
Há algum tempo revi, parcialmente, o filme “S. Francisco de Assis” de Franco Zeffireli.
A certa altura, Francisco, o fundador da Ordem  do seu nome derivada, revoltado com a desigualdade social  que ia  observando , no contexto da qual  muitos eram condenados à miséria e à fome, enquanto outros ostentavam riqueza, debruça-se das janelas do palácio do seu pai, próspero negociante de tecidos, e começa a atirar peças de pano para a rua perante  o entusiasmo da populaça.
A minha primeira reacção quando assistia à cena caricata foi murmurar intimamente: ” É louco!” Porém, logo a seguir, observei a fúria do pai, em baixo, gritando com o filho, tentando recuperar a sua propriedade, acusando-o às autoridades, entretanto chegadas, e ameaçando mandá-lo prender e logo reagi, de mim para mim própria: ” Não, o louco é este!”
Duas atitudes opostas, dois juízos de valor.
Quem teve razão? O santo de Assis, adepto da vida simples e despojada, à semelhança de Cristo, o seu modelo, ou o pai,  rico comerciante, cioso da sua propriedade, ele próprio escravizando o povo na rude tarefa de tingir  tecido?
Não acredito numa resposta unânime. Creio que cada um julgará as atitudes respectivas do pai e do filho de acordo com a sua própria perspectiva e o seu particular código valorativo. Ou então terá a mesma reacção que eu própria tive ao assistir à sequência, considerando que ambos, pai e filho, exageraram nas atitudes, pendendo para extremos opostos.
Tudo é, então, uma simples questão de ponto de vista, não havendo normas de valor absoluto? Tudo pode ser observado e analisado e depois enquadrado na categoria respectiva, sem solução de compromisso?
Se assim for, o que  significa, efectivamente, a normalidade? Que critérios poderão ser invocados, sem margem para relativismo, que permitam absolver definitivamente a atitude de Francisco ao dilapidar os bens da família ou, pelo contrário a justificar plenamente a ira do pai, ao entregar o filho à justiça?
Por outro lado, nenhum deles agiu, de facto, de acordo com a norma social ou moral que obriga os filhos ao respeito pelos pais e os pais à protecção dos filhos…
Em simultâneo, evoquei a cena bíblica, respeitante a Abraão e à ordem de Deus para lhe sacrificar, no alto da montanha, o filho, Isaac. E os meus pensamentos (que ocorreram igualmente a Kierkegaard e estão expressos na sua obra “Temor e Tremor”) foram do seguinte teor:   ” Terá sido Abraão, no seu íntimo, o assassino do filho, na obediência cega à ordem de Deus, ou o seu acto, não perpetrado, de facto, mas presente na intenção,  encontrou  justificação plena no imperativo  emanado do mistério dos desígnios divinos?
Transportemos estas duas histórias ancestrais para o nosso tempo , este século XXI, este ano de 2021, e fixemos a atenção no patamar da normalidade a que acedemos hoje, à revelia do que costumávamos considerar normal anteriormente – e todos sabem do que eu falo. O que está efectivamente certo? Que ordens nos dá este tempo nas linhas das quais possamos entrever a norma dos tempos futuros?
Francisco de Assis seguiu o seu desígnio por entre grande sofrimento e privações voluntárias e o pai não teve como impedi-lo, ainda que escassamente tenha podido compreendê-lo. Abraão não sacrificou Isaac: e ambos se tornaram, cada um a seu modo, referências bíblicas de importância fundamental.
E nós, pessoas de encruzilhada, protagonistas de um tempo que não adivinhávamos , suspensos do machado de Abraão ou perdidos no plano aéreo que medeia entre Francisco, alucinado, na janela e o seu pai, irado, no meio da turba, temos, sem dúvida, uma lição soberana a aprender. Sobre nós.

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