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Cultura, Literatura e Filosofia

PURIFICAR VALORES DA NOSSA SOCIEDADE?

Parte III

(englobada numa crónica com quatro partes)

Jorge Nuno

No livro “Mário Soares – Uma Vida[1]”, onde condensa vários testemunhos na primeira pessoa, o autor refere que Mário Soares, como ministro dos Negócios Estrangeiros, estava encarregado por Spínola, para “negociar”, no primeiro encontro em Dakar, com Aristides Pereira – que representava o PAIGC[2], na qualidade de secretário-geral –, mas pretendia que representasse apenas um gesto de boa vontade e não passasse de “chá e simpatia”, mesmo sabendo do reconhecimento da independência da Guiné, pela ONU e por mais 79 países, no ano anterior.

Não confiando em Mário Soares, pediu a um militar da sua confiança – Almeida Bruno – para o acompanhar. Este mesmo, teria dito a Spínola: «Eu desconfio deste Soares! (…) é um exilado que não percebe de África e deve estar feito com os comunistas». Segundo Mário Soares, até o próprio Álvaro Cunhal terá dito que era “prematuro” falar em independência da Guiné e que se deveria avançar com prudência, na questão da descolonização. Duas semanas depois, em Londres, deu-se início à «negociação direta entre o Estado português e o PAIGC», mas com Spínola a não querer o acordo que levasse à independência e descolonização, apenas aceitava “falar” em autodeterminação – queria ganhar tempo, e apostava num referendo sobre o futuro político da Guiné e Cabo Verde –, enquanto que o PAIGC queria que Portugal reconhecesse de imediato a independência da Guiné. Em agosto de 1974, aquando da visita do secretário-geral da ONU – Kurt Waldheim – a Portugal, o então chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas – Francisco Costa Gomes – ordenou a retirada das tropas portuguesas na Guiné “o mais rápido possível”, dando um prazo até final desse ano.

Prosseguiram as negociações em Argel. Os argumentos, por parte do PAIGC, eram válidos e fortes: se Portugal não reconhecesse o PAIGC como único interlocutor na Guiné-Bissau – dado que a sua legitimidade provinha da luta armada, tal como a legitimidade dos negociadores portugueses vinha do movimento militar, que originou revolução a 25 de abril – não assinariam a paz e continuariam em guerra, realçando que já tinham um domínio sobre dois terços do território guineense.

Assinado o acordo, com tratamento à parte do caso de Cabo Verde, deu-se uma inevitável precipitação de acontecimentos.

Seguiu-se Moçambique, com Soares a ser “vigiado” por Otelo Saraiva de Carvalho, numa conferência realizada em Lusaka, com Keneth Kaunda, presidente da Zâmbia, no papel de mediador. Como delegado da Frelimo, Joaquim Chissano, mas com a presença de Samora Machel. A história repetia-se: A Frelimo só admitia «assinar o cessar-fogo contra o seu reconhecimento como único interlocutor e aceitação do princípio de independência».

Terá sido o próprio Otelo a dizer, mais tarde, que «o Mário Soares só queria o cessar-fogo» – tal como desejava Spínola –, mas com Otelo a dizer a Soares: «Senhor doutor, não ligue ao que diz o velho, que ele já não manda nada». Na verdade, terá sido a Comissão Coordenadora do MFA[3] a tomar as iniciativas pró-independentistas, com Melo Antunes a acompanhar e fomentar a descolonização, já no papel de ministro de Estado, com competências para a descolonização.

Bem mais tarde, Diogo Freitas do Amaral[4] disse ser «(…) uma injustiça histórica acusar Mário Soares pela forma como decorreu a descolonização: que poder negocial tem o ministro dos Negócios Estrangeiros de um país, cujas forças armadas se degradam a ponto de depor e entregar as armas ao “inimigo”, sem autorização dos comandos militares?»

Logo após o surgimento do programa do MFA (com foco nos 3 D’s: descolonização; democratização; desenvolvimento), Mário Soares disse que queria:

– a descolonização possível (para afirmar mais tarde: «Foi um milagre a descolonização que se fez»);

– a democratização, com a instauração de uma democracia pluralista (viria a ser o garante dessa pluralidade);

– o desenvolvimento, com entrada na CEE[5] (tendo sido o grande impulsionador dessa adesão de Portugal às então chamadas Comunidades Europeias, cuja assinatura do tratado de adesão se deu em 1985, quando era primeiro-ministro, oito anos após um processo negocial difícil, e integração oficial em 1 de janeiro de 1986).

A história segue o seu rumo. Pode-se adorar, detestar… até mesmo ficar indiferente. Mas querer entrar por uma via, como se tratasse de uma necessidade de purificação dos valores da sociedade, tendo por base supostas boas intenções, com evidente suporte na ignorância e desconhecimento da realidade… soa a histeria e não dá os resultados esperados.

(continua na parte IV, de IV)


 

[1] de Joaquim Vieira, editado por Esfera do Livros Editora

[2] Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde

[3] Movimento das Forças Armadas

[4] Na altura, professor de Direito e fundador do partido CDS – Centro Democrático e Social, com ideologia democrata-cristã

[5] Comunidade Económica Europeia.

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