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Cidadania e Sociedade

PURIFICAR VALORES DA NOSSA SOCIEDADE?

Jorge Nuno

Parte IV

(englobada numa crónica com quatro partes)

Pode-se dissertar sobre os efeitos da escravatura, da primeira globalização mundial, da Guerra Colonial, da descolonização, ou de muito mais… desde que seja feito o devido enquadramento em cada época. Agora, até se pode anteceder oito séculos e abordar: a criação deste país, a partir do condado portucalense, com aquele que viria a ser o primeiro rei de Portugal, depois de dar uma “tareia” ao amante da sua mãe, na batalha de São Mamede e de, eventualmente, a ter aprisionado no castelo de Lanhoso; os reis da dinastia afonsina que, apoiados com bastantes guerreiros, foram descendo e conquistando território à trolhada, «passando os mouros a fio de espada» numa guerra santa sem tréguas, à sombra da cruz cristã, até acabar o domínio árabe…

Não é recomendável, mas pelos jeitos que isto leva, os “justiceiros” podem querer remover a estátua de D. Afonso Henriques, que se encontra junto ao castelo de Guimarães, por ser um mau exemplo para todos, a pretexto de usar de violência física e psicológica contra a própria mãe, e já agora… exibirem o seu cartão de cidadão no Registo Civil, ou online, e pedirem para remover também a sua própria cidadania portuguesa, ficando apátridas, pois foi um equívoco da história existirem portugueses, quando a norte devíamos ser galegos e no centro e sul serracenos.

Se esses “justiceiros” quiserem ir comemorar a vitória, no campeonato de futebol, para a rotunda do Marquês, em Lisboa, alguém que os esclareça que é um erro, pois ao marquês de Pombal – que foi o equivalente a “primeiro-ministro” do rei D. José I – nem deveria ter sido erigida a estátua em sua honra, já que, apesar de ser o impulsionador da reconstrução hercúlea da cidade de Lisboa, após o terramoto de 1755, ele foi um déspota, ao sobrepor-se a todos, adquirindo uma autoridade absoluta e opressora, a ponto de: criar a Real Mesa Censória; estimular as denúncias para melhor controlar a sociedade; ser implacável na expulsão dos jesuítas de Portugal e das colónias portuguesas; fomentar processos cruéis, como o caso dos Távoras, com processos sumários a envolver nobres, e inclusive mulheres e crianças, com espancamentos, enforcamentos e decapitações públicas; até mandar incendiar, em Monte Gordo, casas de madeira dos pescadores, que se recusavam deixar a zona marítima e ir morar para Santo António de Arenilha, transformada na notável Vila Real de Santo António após o terramoto, com uma urbanização que era “a menina dos seus olhos” e vista como «polo económico florescente do Algarve». Mas se se retirar a estátua, com o Marquês a dominar leões, onde é que estes “purificadores dos valores da sociedade” irão comemorar as vitórias? Mas espera lá!… Será que estarão esclarecidos quanto ao alvará abolicionista criado pelo marquês de Pombal, que passou a impedir o tráfico de escravos com destino a Portugal metropolitano? E será que alguém se importa, ou evidencia, o facto de este vergonhoso negócio ter continuado a servir o Brasil independente e Cuba, com exploração de mão de obra africana, aplicada nas plantações, minas e noutros trabalhos braçais?

Há que reconhecer, neste pequeno país, fundado no séc. XII, a partir de um pequeno condado a norte, três e quatro séculos depois, houve ousadia, empreendedorismo e estoicidade, na descoberta marítima e expansão portuguesa, com reforço da presença, em várias partes do globo – em grande medida sustentada na “diplomacia musculada”, suportada pelo poder bélico da artilharia marítima –, mas criadora de novas oportunidades, a atingir um alcance inimaginável na altura.

Mas mais do que a questão do tráfico de escravos, as novas rotas de comércio, alargamento de territórios (que voltaram a encolher), os estragos causados pela Guerra Colonial, as culpas apontadas aos colonizadores e descolonizadores, numa onda de intolerância e de preconceitos com a história… ficou algo de valor incalculável: a língua portuguesa espalhada pelo mundo e fundida com muitas línguas nativas. Um balanço atual[1], dá conta de 254,3 milhões de falantes de português, mas por se tratar de uma língua de intercâmbios, «o número de atingidos por essas permutas alcança milhares de milhões de pessoas. É aqui que reside a fertilidade e valor da língua portuguesa».

A história segue o seu rumo. Trata-se de uma viagem sem retorno, cuja história não se branqueia. Uma melhor conduta em sociedade, para que essa sociedade seja a que ansiamos, começa a partir do interior de cada um de nós, com a vontade de aprender, de conhecer, de evoluir… até na forma de pensar. Então sim, com esta transformação individual de “purificação” poderemos ansiar por uma sociedade atual mais justa, equitativa, cimentada com valores, pelos quais se devem reger os cidadãos.

Para isso, é preciso ter uma visão calibrada, a envolver saber histórico, que choca, naturalmente, com ideologia política e preconceitos morais. O facto de conhecermos o passado, ajuda-nos a infletir, a reajustar as ideias, a evidenciar sensibilidades e a ter procedimentos mais humanistas, contribuindo para um mundo melhor.

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[1] In TSF rádio notícias, com artigo de Rodrigo Tavares “Realisticamente, quantos são os falantes de português no mundo?”

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