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Cidadania e Sociedade

VAMOS COLHER AS FLORES QUE ABRIL PLANTOU

Anabela Borges

Há 47 anos, eu tinha 4 anos.

Não tenho memória alguma desse dia 25 de Abril de 1974. Mas podia ter, que eu tenho muitas memórias de quando era pequena. Desse dia específico, não tenho.

Dos dias, meses e anos que se seguiram à Revolução, tenho muitas memórias – tenho sobretudo a memória da MUDANÇA. Porque tudo mudou à minha volta desde aí. Há um antes e depois que me marcou claramente. E muito embora eu não consiga estabelecer o dia 25 de Abril como O DIA, porque era muito pequena para memorizar datas, consigo muito facilmente estabelecer esse tempo de Abril nas minhas memórias como o tempo das grandes mudanças.

Lembro-me das canções de liberdade, sobretudo da gaivota voava, voavaasas de vento, coração de mar. […] / Como ela, somos livres, / somos livres de voar.

Lembro-me de terem surgido, repentinamente, risos. E mais do que risos, lembro-me de gargalhadas sonoras, inteiras como pássaros, como conduta até aí proibida; lembro-me disso sobretudo nas pessoas mais jovens. Era como se o rir fosse um bem amordaçado, (in)contido, pronto a libertar-se, solto, a qualquer instante, para, bem alto, clamar uma nova realidade.

Lembro-me também de esses jovens saírem muito mais vezes de casa, muito mais espontaneamente, e de se juntarem, em pequenas reuniões informais, sem pretexto aparente, rapazes e raparigas conversando, dando voz às suas opiniões, nas suas liberdades, e divertindo-se com isso, muitas vezes deitados sobre a erva fresca do monte à sombra dos pinheiros, com uma guitarra e roupas coloridas.

Era pequena e lembro-me disso.

Essa foi a Liberdade de Abril que conheci, que para mim, como era pequenina, era quase como se sempre tivesse existido assim. Mas, ao mesmo tempo, percebi que houve mudanças.

Eu pertenço à geração que cresceu nas promessas de Abril.

Hoje, como muitos de vós, questiono a Liberdade conquistada na Revolução dos Cravos. O velho Abril aos quarenta e sete anos, por vezes, deixa muito a desejar.

Questiono: o que temos? E sabemos que usufruímos de uma falsa liberdade gerida por um mundo que se quer global e capitalista. “Falsa” talvez seja um adjectivo demasiado forte, mas não terei dúvidas em afirmar que é uma liberdade limitada e, em muitos aspectos, ilusória. Nunca fomos tão controlados como somos actualmente; a dignidade humana está posta em causa, os direitos humanos, a integridade, o direito à felicidade; aumentam os casos de pobreza e as pessoas vêem-se encurraladas numa masmorra sem grades, com janelas entreabertas para saída nenhuma. Todas estas liberdades individuais têm vindo a acentuar-se ainda mais com o contexto de Pandemia que vivemos há mais de um ano, em Portugal e no mundo, sobressaindo muito em sectores fundamentais, como no acesso à saúde e à educação.

A verdade é que também não me identifico muito com as pessoas que falam, falam, criticam, mas não fazem nada. Vai uma crise de identidade muito grande. Falta-nos a força de outrora, a determinação. Precisamos de cuidar das FLORES DE ABRIL – semear, regar, mondar – para podermos colhê-las belas e cheias de vitalidade.

Precisamos de uma sociedade coesa nos direitos elementares e com espaço para a individualidade, uma sociedade em que cada um saiba pensar por si, em que cada um respeite verdadeiramente a diferença e que condene verdadeiramente todo aquele que agride os direitos fundamentais do outro, de todas as formas. Liberdade é respeitar o próximo na sua integridade, é não negar ao outro o direito de ser feliz.

O que falta conquistar? Muita coisa que nunca tivemos e muito do que se perdeu, mas pelo menos comecemos por “resgatar” a cultura do estado de negligência em que caiu. Comecemos por aí talvez, apostemos em “cortar” na ignorância, sejamos mais activos e interessados, mais participativos, não deitemos o país ao abandono.

Lembro-me que havia, acima de tudo, muitas coisas que preenchiam as pessoas, os dias preenchiam as pessoas com esperanças do tamanho dos peitos. Agora, vemos vazio em tudo. Agora, impuseram-nos de novo o desalento. E querem-nos ignorantes, é assim que nos querem…

Devemos sempre lembrar e ter no coração o nosso 25 de ABRIL, visto por muitos como a REVOLUÇÃO MAIS BELA DO MUNDO.

Abril, sempre; Liberdade, sempre!; 25 de Abril, sempre! – que  nunca fui pessoa de baixar os braços, nem de pôr a esperança de parte. Lembro-me de sorrisos, gargalhadas sonoras e de uma imensa felicidade sem saber de quê.

Viva o 25 de Abril!

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