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Cultura, Literatura e Filosofia

O VALOR INTRÍNSECO DA VIDA

REGINA SARDOEIRA
Pergunto a mim própria: por que razão a vida do homem é mais importante que a vida de um pássaro?
Há umas horas atrás observei um desses pequenos animais que volteava, em minúsculos saltos, por um rectângulo de terreno junto ao estacionamento de um supermercado. Era ao entardecer e, enquanto os humanos saíam e entravam das portas do estabelecimento, com o seu passo rígido, sérios no semblante, carregando sacos, a pequena ave, saltitava, daqui para ali, apanhando  minúsculos insectos, antes de recolher ao abrigo nocturno.  Era uma boieirinha, de cauda comprida e porte pequeno, tão grácil e viva nos seus pequenos passos harmoniosos que despertou em mim a certeza de que o seu pequeno coração, os seus membros mal entrevistos por entre a erva, a sua cabeça móvel plena de intenção valiam o mesmo, senão mais, que todos os homens e mulheres atarefados com os seus sacos de produtos, rumo aos seus destinos. Entendi que a vida é una e tem um valor intrínseco esteja ela onde estiver, seja qual for o seu aspecto ou dimensão.
Dias antes soube de um homem que, perante a possibilidade de ver o seu terreno invadido pelo  cão do vizinho, o ameaçou, dizendo: ” Arranje a vedação porque se o seu cão entrar aqui, eu mato-o!”
Pergunto a mim própria que direito tem esse homem não somente de matar o cão, possível invasor da sua propriedade, mas ainda de ameaçar, deste modo, o dono incauto.  Pergunto a mim própria que direito temos nós, humanos, de tirar a vida de outros seres, também eles vivos, como nós, também eles dotados de organismos, como nós, também eles capazes de sentirem o prazer e a dor, como nós. Pergunto a mim própria o que somos, afinal, de tão grandioso, a ponto de nós arrogarmos o direito de imperar sobre a natureza, desfigurando-a, traindo a sua autenticidade e destruindo as demais espécies como se nelas não pulsasse também uma vida.
São incómodos todos estes pensamentos e não têm resposta as perguntas com que exteriorizo a minha incredulidade.
Era necessária uma mudança radical nos hábitos engendrados em séculos de civilização às avessas. E eu não creio que exista no homem, comandado por máquinas e quase robotizado, ele próprio,  o desejo de ver o esvoaçar ligeiro da boieirinha e perceber que se agita nela o sopro de vida que igualmente nos alenta, ou condenar o proprietário do quintal por ameaçar a vida de um cachorro aventureiro.
Que sabemos nós acerca do valor de tudo o que vive e connosco partilha a natureza para admitimos uma superioridade cujo limite é plenamente visível e cujo poder destrói muito mais do que cria?
Mediocremente  seremos capazes de responder, quando nem tão pouco temos a verdadeira sabedoria acerca do nosso próprio valor.
Entretanto, a vida pulsa e liberta-se no esplendor verde e policromático da Primavera em apoteose, os animais procriam e agitam-se nos seus locais secretos e o homem continua arrastando o seu peso milenar, cada vez mais à margem do seu próprio sentido de viver.

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