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ROUXINOL OU PEDRA DA CALÇADA?

David Amaral 

Na prática musical, especialmente no canto, o tema desta crónica, destaca-se muitas vezes o talento inato ou natural do aprendiz como condição para a evolução, até mais do que na aprendizagem e interpretação de um instrumento.

Existe uma ideia pré-concebida, a meu ver errada, que alguém que cante mal, dificilmente, cantará bem, especialmente a um nível não profissional.

É evidente que a afinação define a qualidade de um cantor ou cantora, apesar de outros elementos musicais serem extremamente importantes, mas não é impeditivo de uma margem de progressão. Por vezes, as crianças e adultos autoexcluem-se pela consciência que têm das suas dificuldades de afinação.

A afinação é a capacidade da voz ou instrumento em replicar uma determinada altura de um som, ou seja, cantar ou tocar na mesma frequência. Assim, desafinar é não reproduzir uma determinada nota ou conjunto de notas musicais, a solo ou em grupo. A falta de afinação pode ser pontual ou mais persistente. Todas as notas musicais têm uma determinada vibração ou frequência da onda sonora que se mede em hertz (Hz).

Esquecendo a parte teórica ou conceptual, recordo uma história do saudoso Cónego Carlos Silva, proeminente compositor de música sacra e dos mais bonitos cânticos litúrgicos. Contava que na sua infância, um dos seus colegas de escola era extremamente desafinado e, efetivamente, um mau cantor, facto que o seu professor de Música lamentava. Contudo, ao fim de alguns anos, verificou uma evolução surpreendente levando o professor a afirmar:”-Tu és a prova viva de que até as pedras da calçada conseguem cantar!”

Na prática musical, o estudo e o treino são fundamentais para o desenvolvimento da aptidão existente, seja na execução de um instrumento, seja na prática vocal. Na minha experiência de direção coral, assisti a evoluções notáveis, tanto na capacidade de cantar como na afinação.

A música não está apenas ao alcance dos mais dotados. Com gosto, vontade em aprender, treino e persistência é possível fruir e evoluir. E mesmo para os mais talentosos, não se dispensa o treino intenso e a persistência.

O canto não se divide nos que cantam bem e nos desafinados, nos rouxinóis e nas pedras da calçada.

Já João Gilberto cantava assim no famoso tema “Desafinado”:

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

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